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‘Ele’/Lui

Luiz Carlos Merten

02 de junho de 2013 | 13h00

Ontem, em casa, me esperavam alguns pacotes de DVDs e Blu-rays. A Fox lançou neste último a versão de 1974 de O Grande Gatsby, dirigida por Jack Clayton e com roteiro de Francis Ford Coppola. Cheguei a conversar brevemente com Bruce Dern, melhor ator de Cannes neste ano – por Nebraska, de Alexander Payne -, sobre seu papel como Tom Buchanan. Ele próprio não tem boa lembrança, mas o Ernesto, do Recife, que reviu o filme recentemente, me disse que achou muito bom. Seria o caso de rever, pois-pois, mas se Robert Redford tinha a allure para fazer Jay Gatsby, não creio que Mia Farrow tenha sido uma escolha adequada para Daisy. Seja como for, quase fui rever Gatsby em Paris, a versão antiga, que voltou ao cartaz nos cinemas, mas preferi terminar vendo outras coisas. Outros lançamentos (em DVD, da Versátil) – Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais, que não pode ser a versão restaurada que vi em Cannes Classics (um deslumbramento), e o Acossado de Jean-Luc Godard. Conversei com Bernadette Laffont  sobre como os filmes de Godard, de maneira geral, me parecem ter envelhecido mal e ela até concordou que alguns de Claude Chabrol, da mesma época, hoje parecem mais sólidos. Vale aquilo que Paulo Francis dizia dele – Godard somente leu as orelhas de livros (teoria e/ou literatura). Na época, suas inovações/provocações deslumbravam. Hoje, me parece que sobra bem pouca coisa. Viver a Vida, com certeza, e talvez Week-End à Francesa. Não creio que Acossado, 50 e tantos anos depois, seja um grande filme, apesar de Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg. Mas exultei ao ver que, entre os extras do DVD, está o documentário de Claude Ventura, Quarto 12, Hotel Suède, que vi na Cultura, anos atrás, e tinha em VHS, mas se perdeu. O Hotel Suède desapareceu, mas foi lá que Godard rodou as cenas íntimas de Michel Poiccard e Patriciá. Sempre achei aquele documentário uma beleza, espero que continue sendo. Sobre Hiroshima, concordei plenamente com Emmanuelle Riva quando ela, apresentando o filme de Resnais, disse que ele escapou do tempo e virou eterno. Minhas cenas favoritas – quando ‘elle’ começa a contar a ‘lui’ sobre o amante alemão. Como eles faziam amor partout. A beleza das imagens, a música. Emmanuelle Riva conheceu no ano passado um reconhecimento extraordinário (por Amor, de Michael Haneke). Sua beleza e a musicalidade da voz também lhe permitiram escapar ao tempo. Mas o filme tem Eiji Okada – e ele é, para mim, uma das mais perfeitas representações da virilidade no cinema. Um macho moderno – a forma como fala do corpo daquela mulher (‘Tu es une jolie femme’) e como, de forma persuasiva, vai invadindo o passado dela, tudo isso me deixa chapado. Sou capaz de ver o filme 100 vezes, e é sempre o prazer renovado, com descobertas inesgotáveis. Fui procurar na Wikipédia. Eiji Okada morreu em 1995, aos 75 anos. Tinha 38 anos quando fez ‘ele’. Foi ator de teatro e cinema. Neste último, além de Resnais, é lembrado por Cristo de Bronze, de Minoru Shibuya, Jun’ai Monogatari (Uma História de Amor Puro), de Tadashi Imai, que ganhou um Urso em Berlim, A Mulher na Areia, de Hiroshi Teshigahara, e Quando Irmãos Se Defrontam/The Ugly American, ao lado de Marlon Brando – seu outro papel de destaque no Ocidente -, mas o filme de George Englund, até onde me lembro, não é bom, apesar de suas revelações sobre a sordidez da política norte-americana na Ásia. Não me lembrava de ter feito o necrológio de Eiji Okada no Estado. Presto tributo agora a um ator que é mítico para mim.

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