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Elegia para um criador, Nelson Pereira dos Santos

Luiz Carlos Merten

21 Abril 2018 | 19h29

O dia está sendo duro – tenho meus motivos para dizer isso. Achei que, depois dos posts sobre Sete Dias em Entebbe e Elegia de Um Crime não teria mais o que postar neste sábado. Havia saído e agora, ao chegar em casa, descubro que morreu, aos 89 anos, Nelson Pereira dos Santos. Nelson! Fiz um texto para o online. Até onde me disseram – espero não ser fake news – morreu de câncer no fígado e já generalizado, pois o diagnóstico foi tardio. Mil e uma ideias fervilham na minha cabeça. Nelson assimilou o neo-realismo e abriu caminhos, nos anos 1950, com Rio 40 Graus e Rio Zona Norte. Foi um dos pais do Cinema Novo e, nos 60, fez obras viscerais como Vidas Secas e Fome de Amor. Sua obra pode ter sido desigual, mas em cada década ele produziu suas obras-primas. Nos 70, Como Era Gostoso o Meu Francês e O Amuleto de Ogum. Nos 80, o subestimado A Estrada da Vida e Memórias do Cárcere. Nos 90, Cinema de Lágrimas. Nos anos 2000, os demais documentários. Nelson foi um dos autores que esculpiram nossa identidade na tela. Quando jovem, foi um homem de uma beleza impressionante. No arquivo do Estado, tem uma foto dele naquele período, por volta de 1970, em que construiu seu enclave em Paraty, filmando sem parar, num período em que a censura do regime cívico/militar era dura. Nelson poderia ter sido galã. Gosto de fantasiar o que terá sido a vida naquele paraíso – sexo, drogas? Mas ele preferiu ser diretor, um dos grandes. Deixou uma marca. Estou aqui sofrendo. A dor extravasa o problema do joelho. Todas essas perdas – na semana passada, Milos Forman e Vittorio Taviani; agora, Nelson. Restam os filmes, eternos no imaginário dos cinéfilos.