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Elegia de Um Crime, o choque

Luiz Carlos Merten

21 Abril 2018 | 12h40

Na apresentação de Elegia de Um Crime, ontem à noite, no É Tudo Verdade – Instituto Moreira Salles, na Av. Paulista -, Cristiano Burlan disse que preferiria não ter feito esse filme, mas não teve escolha. Elegia de Um Crime fecha a trilogia do luto do diretor, que, em dez anos, perdeu o pai – tema do curta Construção, em 2007 -, o irmão (Mataram Meu Irmão, de 2013) e agora a mãe. Ela foi assassinada pelo companheiro, em 2011. Na abertura do filme, Cristiano conta como, no velório, só conseguia pensar no seu desejo de filmar a morta. No final, reflete. Seu pai e seu irmão teriam feito justiça com as próprias mãos, caçando e matando o assassino, que permanece foragido. Ele, não. Cristiano filma. Confesso que não estava nada bem, ontem. Muita dor na perna e otras cositas más. Elegia de Um Crime teve um efeito devastador para mim. Poucas vezes me senti tão mal após um filme. Mas, depois, fui decantando. Aquilo que falei no post anterior – arte vs. violência. Não sei se vou conseguir ir adiante, agora, falando sobre Elegia de Um Crime. São muitas ideias borbulhando na minha cabeça. No debate que mediei sobre Antes do Fim, Cristiano lembrou como escrevi, no Estado, um texto juntando o filho do pedreiro (ele) e o filho do banqueiro (João Moreira Salles, Santiago). Tenho uma admiração sem limites por Santiago, que me parece um dos grandes (o maior?) documentário do cinema brasileiro. Cristiano e João filmaram o pai. E a mãe. Mas, enquanto o suicídio da mãe é velado em No Intenso Agora, o asssassinato de Isabel Burlan Silva é escancarado em Elegia de Um Crime. Talvez tenha a ver com uma estética de classe – sorry, João. As grandes famílias escondem seus segredos. Os pobres, periféricos, não têm essa regalia. Por um momento, o plano da mãe morta de Cristiano invadiu o noticiário de TV, sob o título de ‘Crime na perferia’. É muita dor. Cristiano abraça o irmão, que foi preso muitas vezes e agora está tentando viver direito. Cristiano recrimina-se por não ter conseguido proteger a mãe, o irmão chora porque não foi o filho que ela talvez sonhou. E o irmão canta um rap para Isabel. Princesa/guerreira. Tenho 72 anos. Há 50 (e um) escrevo profissionalmente em jornais. Parafraseando Cristiano, no meu estado de espírito de ontem, Elegia de Um Crime não era o filme que gostaria de ter visto, mas ele agora me habita. Fez-se necessário em minha vida. (Quantos lutos ainda terei de fazer?) Um filme como esse pulveriza todas as minhas certezas. O que talvez seja uma contradição interna está me apaixonando. O irmão protesta contra o policial que o discrimina por seu passado, e não o quer em sua vizinhança. Vou ter de ser sempre bandido?, pergunta. (E uma semana após a entrevista, apesar de todo o seu desejo de ressocialização, ele foi preso, de novo.) Cristiano, com a arma que tem – o cinema -, expõe o assassino, aponta seu dedo acusador. Como seria outro filme do ângulo desse matador? Seria possível, viável? Me mereceria a dilacerada compaixão de Elegia de Um Crime? Tive uma epifania com Antes do Fim, já escrevi aqui. Outra, agora? Esse Cristiano não é mole, não. Está levando o cinema brasileiro, paulistano, a níveis de pungência que me arrebatam (e arrebentam).