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Ele é, sim, bom

Luiz Carlos Merten

10 de setembro de 2012 | 10h28

Havia visto ‘Eu Faço… Elas Sentem’ na retrospectiva de Clery Cunha na Sala Olido. Não consigo dar conta do filme, que propõe, no desfecho, por meio de um letreiro, a explicação para o conflito retratado e que é bizarro, no mínimo. O jovem Antônio Fagundes apresenta reações femininas e vai parar nas capas de jornais como homem-mulher, mas, na verdade, o imbróglio é que ele nasceu colado à irmã, de quem foi separado e, agora, adultos, ambos apresentam reações inversas (ela fala grosso como homem). Clery Cunha é considerado o pai do cinema espírita, com seu disaster movie sobre a tragédia do Eifício Joelma, mas, apesar disso, não é digno de figurar na Enciclopédia do Cinema Brasileiro, cuja nova edição, cada vez que tento pesquisar, mais me decepciona – tirando os nomes mais conhecidos, não encontro ninguém, principalmente entre diretores considerados do segundo time, sobre os quais me interessaria encontrar infrormações. Gostaria de convidar o Fagundes, tão bom na peça ‘Vermelho’, para que ele se revisse com aquelas calças boca-de-sino, que eram a moda da época, com cintura baixa e um cintos grossos, ave Maria! Pior ainda que os homens, e as calças eram apertadíssimas, o que, dependendendo da ‘mala’… Deixa pra lá. As plataformas que as mulheres usavam – são inacreditáveis. Walter Hugo Khouri reclamava mais dos figurinos que da interferência do produtor Antônio Galante em seu cinema autoral, e os figurinos da Boca eram, realmente, de lascar. À noite, ainda meio atordoado pela agressão visual, jantei (ceviche de salmão) na Reserva Cultural e emendei com ‘Os Infiéis’. Em fevereiro, na França, a campanha de lançamento do filme com Jean Dujardin e Gilles Lellouche sofreu uma correção, porque o cartaz, considerado politicamente incorreto – Dujardin envolvido pelas pernas abertas de uma mulher e dizendo ‘Vou entrar numa reunião’ –, poderia prejudicá-lo no Oscar. que ele ganhou. ‘Os Infiéis’ tem vários diretores, incluindo Michel Hazanavicius e a dupla de atores, todos versando sobre a infidelidade masculina. Me diverti com o epísódio ‘Adúlteros Anônimos’, em que Sandrine Kiberlain (ótima) lidera uma reunião tipo alcoólatras anônimos. Os caras são todos umas bestas, e o melhor é Guillaume Canert, o sr. Marion Cotillard, que interpreta ‘Thibauld’ e rouba o filme. Não gostei como um todo, uma que o filme é sobre a dificuldade de ser adúltero, ou infiel. Como no célebre episódio do seminarista Marcello Mastroianni cobiçando a sexy Sophia Loren em ‘Ontem, Hoje e Amanhã’, de Vittorio De Sica, as histórias são quase todas de coito interrompido, porque os caras, salvo em um ou outro momento, nunca chegam lá. Eles se autoanalisam – essa coisa de trair compulsivamente é sintoma de homossexualismo reprimido –, até como forma de preparar o público para o episódio final em que Lellouche… Não vou dizer o que ele faz com o machão Dujardin, mas nenhum astro de Hollywood iria ficar de quatro, naquela situação. Conversei bastante em Cannes, em maio, com Gilles Lellouche. Ele interpreta, com Audrey Tautou, a ‘Thérèse Desqueyroux’ de Claude Miller, exibida, postumamente, como homenagem ao diretor, na noite de encerramento. Falamos do reconhecimento que Cannes, e o mundo, estão fazendo ao cinema popular francês – a ‘O Artista’ e a Lellouche, naquele momento, o astro do tapete vermelho, no maior festival do mundo. Não gostei de ‘Os Infiéis’ e até me deprimi, mas gostei de ter visto o filme. Não que tivesse dúvida, mas, se tivesse, é a prova de que Dujardin é, sim, bom ator.

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