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Efemérides (3)/Meu tributo a um dos maiores

Luiz Carlos Merten

28 de junho de 2016 | 15h05

Na quinta, 30, serão os 110 anos de nascimento de Anthony Mann. No ano que vem, em abril, 50 anos de sua morte. Stanley Kubrick devotou sua vida, de forma muito consciente, a realizar obras-primas, clássicos definitivos, de vários gêneros. Em alguns (gêneros), conseguiu. Guerra, ficção científica, farsa política, terror. Anthony Mann nunca teve esse projeto, que se saiba, mas também se destacou nos principais gêneros do cinema norte-americano, e com grandes filmes, imensos. Sua contribuição ao filme noir é inestimável, com Moeda Falsa e Entre Dois Fogos. Seus westerns com James Stewart representam, segundo Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon, o que de mais puro e perfeito o gênero produziu. E Godard, que dizia que Mann era o diretor que melhor sabia construir um personagem no plano externo – Nicholas Ray era o equivalente no plano interno, e a junção dos dois daria o maior diretor do mundo, segundo o Jean-Luc crítico -, amava O Homem do Oeste, com Gary Cooper, tendo dissecado a montagem da célebre cena em que Julie London é forçada a um estupro moral, tendo de fazer um strip-tease para o bandido que a ameaça (com faca). Sem exagero, talvez essa cena tenha sido a escadaria de Odessa do mais revolucionário autor da nouvelle vague, porque Godard a dissecou, e da forma mais laudatória. Mann também fez um dos melhores filmes de guerra – Os Que Sabem Morrer, com Robert Ryan e Aldo Ray -, mas, para mim, a coisa esquenta de verdade quando chegamos aos superespetáculos históricos. El Cid é o mais belo épico do cinema, e o movimento circular da câmera quando Sophia Loren, como ‘Ximena’, desce a escada em arco só não é mais deslumbrante que o contraplongê de Rodrigo (Charlton Heston), morto e amarrado ao cavalo, comandando, postumamente, a última ofensiva contra os mouros. Aquele órgão lancinante de Miklos Rosza é coisa de gênio. E, claro, tem A Queda do Império Romano, que foi a gênese de Terra em Transe. Antes que confundam minha lucidez com loucura, quero lembrar que Glauber Rocha mostrou Deus e o Diabo na Terra do Sol em Cannes, em 1964, e que naquele ano Mann estava na seleção com seu épico sobre Roma, não sendo despropositado supor que o brasileiro tenha visto o filme do outro ou, pelo menos, ouvido falar dele. A cena final, de Sophia Loren, como ‘Lucila’, enlouquecida dirigindo-se à população, nas ruas, enquanto os senadores fazem leilão do Império, é o plano mais glauberiano que Glauber não filmou. A descontinuidade na montagem de um superespetáculo narrativo de Hollywood. O transe! Glauber misturou Anthony Mann com Gabriel García Márquez, foi isso que ele fez. Mann dirigiu só mais um filme, depois. Havia sido despedido do set de Spartacus pelo astro-produtor Kirk Douglas, substituído por Kubrick, mas dirigiu o pai de Michael Douglas em Os Heróis de Telemark, cujo DVD encontrei e comprei no outro dia, porque é um filme que quero muito rever. Em 1967, foi fulminado por um ataque do coração e morreu no set de O Espião de Dois Mundos, que o ator Laurence Harvey concluiu. Cada vez me convenço mais que Mann não foi só grande. Foi um dos maiores, isso sim. E ele ainda foi casado com Sara Montiel, a quem dirigiu em Serenata, que, embora baseado em James M. Cain, foi talvez seu filme mais fraco, quase anódino, Tinha uma bela trilha, com Puccini e Verdi, formatada para Mario Lanza, mas havia na trama uma sugestão de homossexualidade que Mann não soube ou não pôde desenvolver, seja por ser estranha ao seu universo ou por causa do moralismo hollywoodiano que ainda considerava o tema tabu, na segunda metade dos anos 1950.