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Efemérides

Luiz Carlos Merten

14 de março de 2016 | 09h44

Está sendo uma temporada de efemérides. No sábado, 12, Liza Minnelli fez 70 anos. Embora não seja louco de não reconhecer a importância de Cabaret, não sou o maior fãs do musical de Bob Fosse, exceto por algumas montagens paralelas realmente interessantes. A verdade é que não rezo muito pela cartilha do musical. Gosto pontualmente de musicais de Vincente Minnelli, o pai de Liza (Sinfonia de Paris), Stanley Donen (Cantando na Chuva e Sete Noivas para Sete Irmãos) e George Sidney (Dá-Me Um Beijo), mas tenho a impressão de que, se tivesse de escolher um só filme do gênero não vacilaria, e seria My Fair Lady, de George Cukor. Minha cena emblemática não é a de Gene Kelly com o guarda-chuva, mas a do pretendente, apaixonado por Elisa, cantando On the Street Where You Live. Mas, enfim, gostei de ter escrito o texto comemorativo sobre Liza na versão online do Estado, porque me permitiu voltar as dois filmes que ela fez antes de Cabaret – Os Anos Verdes, de Alan J. Pakula, e Dize-Me Que Me Ama, Junie Moon, de Otto Preminger. Lá vou eu ser chamado de incorreto. Liza pode ser filha de dois grandes artistas, Minelli e Judy Garland. Pode ter herdado talento, sensibilidade, mas como produto estético-genético conseguiu reunir características físicas que seriam, digamos, uma súmula do pior de cada um. Em suma, era feia, a pobre, era isso que os filmes de Pakula e Preminger sublinhavam. A garota de Os Anols Verdes não só era sem graça como falava compulsivamente, jogando-se sobre um colega que, no limite, não só descobria sua existência como se envolvia com ela. O caso de Junie era mais radical. A personagem teve o rosto deformado com ácido por um ex. Liga-se a um epilético e a um gay que ficou paraplégico em consequência de um tiro. Unem-se, alugam uma casa. Em plena civilização da imagem, num mundo que, por volta de 1970, celebrava a liberdade sexual relacionada à beleza, Preminger, na contracorrente, criou a sua utopia contracultural dos feios. É um filme que nunca revi, mas pelo qual, no meu imaginário, tenho um carinho imenso. Lembro-me que Maurício Gomes Leite colocou-o entre os melhores daquele ano. Liza era, metaforicamente falando, prima-irmã de Rita Tushingham, que fez filmes importantes mas, condicionada por um tipo físico fora dos padrões, não foi muito adiante. O que salvou Liza foi Cabaret, o Oscar, o fato de ela ter virado show woman e ter sido, de cara, como a mãe, ídola gay. Não tenho essa paciência de procurar na rede ou na TV paga para tentar (re)ver os filmes de Pakula e Preminger, talvez porque estejam num nicho que me permite revisitá-los na lembrança. Preminger tinha a fama de ser ditatorial com os atores. Liza conta, no livro de Chris Fujiwara – The World and Its Double, sobre o grande diretor -, como ele a forçou a chorar na cena em que Junie se vê no espelho, deformada. “Cry!”, Preminger berrava. “Both eyes!” E Liza, aterrada, chorava convulsivamente, as lágrimas escorrendo pela face, de ambos os olhos. Isso me lembra uma história muito divertida que Elia Kazan conta no livro com a entrevista que deu a Michel Ciment. No começo de sua carreira, ele dirigiu Spencer Tracy e Katharine Hepburn em Mar Verde. Ela tinha de chorar. Kazan achou a cena maravilhosa, mas faz a ressalva de que não sabia que ‘Kate’ chorava por qualquer coisa e depois seu problema foi evitar que chorasse tanto. O executivo do estúdio, a Fox, a cargo da produção, chamou-o e mandou que refizesse a cena. “Mas por que, está tão boa?”, insistiu Kazan. E o cara respondeu – “As lágrimas não estão escorrendo direito.” Como assim, quis saber o diretor? “Meu amigo, você ainda tem muito que aprender”, foi a resposta definitiva. Adoro essas histórias. Assim era Hollywood. Prosseguindo – no domingo, 13 – ontem -, José Mojica Marins fez 90 anos e escrevi um texto no Estado, o impresso. Na quarta, 16, Jerry Lewis completa 90 anos. E, na quinta, 17, são os 40 anos da morte de Luchino Visconti. Em novembro dia 2, serão 110 anos de nascimento do grande Luchino. O problema é que quero escrever textos. No online, meus editores insistem que só funcionam as galerias de fotos – e eu que insisto em fazer o meu blog sem fotos. Enfim – imagens emblemáticas não faltam no cinema de Visconti, para compor belíssimas galerias. Acrescento que a Mostra adquiriu os direitos de reexibição de Rocco e Seus Irmãos, mas não conseguiu trazer o filme para lançar esta semana – talvez para novembro. Senza Luchino, quarant’anni. O tempo passa, muita coisa mudou na minha vida e no cinema, mas tenho de dizer que meu amor pelo cinema de Visconti segue intacto.