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É tudo verdade! O encontro magno desse festival…

Luiz Carlos Merten

29 Abril 2017 | 12h59

…Uma coisa assim meio tucana, nem cá nem lá. João Moreira Salles reflete sobre os impasses da criação. A frase provoca uma onda de riso na plateia que praticamente lota a sala do Centro Cultural São Paulo, a maior, na tarde de sexta-feira. Apesar da greve, éramos muitos, menos os coleguinhas da crítica, que não vi nenhum. O que iriam aprender num encontro de João – afinal, um medíocre, segundo Sérgio Alpendre – com seu montador, Eduardo Escorel, para falar de No Intenso Agora? Sou mais o Amir Labaki – ‘É o filme (brasileiro) do ano…’ Volto aos tucanos, motivo de piada. É o que dá, querer ser o fiel da balança de maneira pragmática, não ideológica. Por falar em piada, ouvi ontem uma ótima sobre aquele ministro do Supremo. Vocês sabem – ‘Jesus, ele virou advogado dos bandidos… Tá soltando todo mundo.’ He-he. Leio nas manchetes dos jornais de hoje que Temer achou a greve fraca e vai continuar (servindo a seus senhores). Não sabia que tinha tanta polícia no País. Olhando na TV, havia lugares em que havia mais policiais que manifestantes, numa ação que não era preventiva, mas claramente intimidatória. Vi uma cena chocante. A garota caiu, estava sozinha porque não havia mais ninguém por perto e quatro – quatro! – PMs caíram de porrete em cima dela, não sei nem onde foi. A PM de Alckmin? Sumiu a principal peça incriminatória contra ele, nessas denúncias que o atingiram. Muito interessante. E chega – vivi ontem uma epifania no CCSP. Não tem nada que me encante mais que ver João Moreira Salles falar de seu mentor, Eduardo Coutinho. João me faz sentir culpado por não gostar (tanto) dele. Gosto, claro – de Edifício Master mais que de Cabra Marcado, mas suas observações (de João) são tão precisas, e pertinentes. Por exemplo, ele falando sobre como foi liberadora para Coutinho a experiência do corte em Santo Forte. Pode-se juntar, por meio do corte e da montagem, não importa que duas diferentes imagens. (Sergei M. Eisenstein já dizia que elas iam formar uma terceira coisa…) A mesa de João e Escorel na Conferência Internacional do Documentário, com direito a Amir Labaki, Dora Mourão e Jacques Cheuiche na plateia, foi, para mim, o ponto alto dessa edição do É Tudo Verdade. Gostei muito de vários filmes – Cidades Fantasmas, É Tudo Irrelavante Hélio Jaguaribe, O Show da Guerra etc. Perdi outros que queria ver, como Mexeu Com Uma, Mexeu com Todas. À tarde, pretendo ver Laerte-se, para me dar mais uma chance de entender essa figura que me desconcerta. Longe de mim querer bancar o Bolsonaro, tentando restringir a Laerte de ser quem é, mas seu estilo transgênero ‘rainha da Inglaterra’ é um pouco demais para mim. E vindo de uma humorista… Talvez seja esse o supremo humor e eu não capto. Toda força à Laerte! E ao João… Ele falou sobre a mãe, Maio de 68, documentário na primeira pessoa, material de arquivo etc. Mas tenho a impressão que o mais importante de tudo foi a questão forma vs. fundo. O que conta mais – o tema, ou a forma? E quando o tema é a forma? Tenho pensado muito nessas questões. Hiroshima, Meu Amor. Alain Resnais amava os escritores. Nunca escreveu um roteiro. Para isso tinha Duras, Robbe-Grillet, Cayrol, Semprun, o inglês aquele de Providence, como é mesmo o nome? Mercer? David Mercer? Resnais era um formalista? Porque não há diretor que seja um autor mais facilmente identificável – Alfred Hitchcock, talvez. Existem os temas – memória e esquecimento -, mas o que imprime a assinatura é a forma. Agora vou me contradizer, em termos. O filme mais comercial de Resnais – Stasvisky – é uma obra-prima de linguagem. Poderia vê-lo eternamente, em looping, mas a fama é de um Resnais ‘menor’. No documentário, há uma assinatura de João em Santiago e No Intenso Agora, como há uma de Frederick Wiseman. Entrevistei-o por telefone por Em Jackson Heights e, infelizmente, ainda não pude publicar a matéria. (Perdi a data da exibição do filme, que era uma só, num festival relâmpago.) Wiseman! Adorei quando João evocou Robert Flaherty e Jon Grierson, como mestres precursores numa época em que o documentário era ‘exótico’ ou… Qual é mesmo a palavra que ele usou? Deveria ter anotado, mas ressaltava que Grierson ia no oposto. Não era mais Nanook, o Esquimó nem Moana nem As Sombras Brancas dos Mares do Sul, mas aquele cuidado visceral de verossimilhança. Confesso que o encontro de João Moreiras Salles com Eduardo Escorel foi como uma aula magna, que não via/ouvia há muito tempo, para mim.