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É tudo relevante, Hélio Jaguaribe

Luiz Carlos Merten

26 Abril 2017 | 01h07

Foi prematuro. Depois de assistir ao belo Cidades Fantasmas, dei por encerrada a competição brasileira do 22.º É Tudo Verdade. Quem mandou? Escrevi num post recente que o que mais gosto é de ser surpreendido ou maravilhado. Izabel Jaguaribe surpreendeu-me, e maravilhou-me. Em nome da honestidade intelectual, tenho de admitir que não punha muita fé no filme dela. Havia lido o texto de apresentação no catálogo do É Tudo Verdade, em que Izabel diz que nunca quis filmar o pai, mas dar conta do intelectual. Achei meio presunçoso. Arrependo-me. Sérgio Rizzo, que conduziu o debate após a apresentação de Hélio Jaguaribe – É Tudo Irrelevante, começou pelo óbvio. Não digo querendo criticar. Às vezes, tem de ser assim. Por que Izabel não quis fazer um documentário na primeira pessoa, dando conta do pai? Não sei se ele estava pensando em Eu, Meu Pai e os Cariocas, de Lúcia Veríssimo, mas o paralelismo se impõe. Izabel deu seus motivos – o pai sempre foi cioso de sua privacidade, ao mesmo tempo em que, como intelectual, foi sempre muito atuante. Daí seu formato. O do filme da Lúcia também se justifica porque o próprio Severino Filho a define como ‘sua’ musa. O mais interessante, para mim, é que ambos, o cientista político e o maestro, professam seu amor pela música e os dois, o desenvolvimentista e o mestre das harmonias musicais, encontraram no Brasil de Juscelino – 50 anos em cinco -, o momento em que suas ideias e conceitos se cristalizaram. Todo mundo – Maria do Rosário Caetano e Luiz Zanin – observou que É Tudo Irrelevante termina muito bem, com uma anedota que não vale reproduzir, mas quem for ver vai amar. Não deixa de ser um equivalente para as palmas no filme de Lúcia, muito interessante, que também terminam o filme dela para cima. Só sei que gostei – muito – do filme de Izabel, bem mais do que achava que iria gostar. O negócio, não me canso de dizer para mim mesmo, é não fazer pré-julgamentos. Hélio Jaguaribe pertence a uma geração de intelectuais que quis pensar o Brasil. Mais que isso – a uma geração de brasileiros bem nascidos e comprometidos com o País. Seu pensamento para o Brasil é o de uma elite esclarecida, que formulou teorias para um capitalismo autônomo brasileiro, apoiado na participação da burguesia e na integração com a América Latina. Fiquei pensando comigo se Maria da Conceição Tavares, que faz as análises mais pertinentes sobre Hélio e sua geração – pelo menos para mim -, não traçou seus limites, já que ele, vindo da Cepal e do Iseb, era um reformista, não um revolucionário e terminou aderindo à social-democracia. Volto ao filme da Lúcia. Eu e Meu Pai poderia terminar para baixo, com aquela morte. As palmas levantam o astral. A história final de É Tudo Irrelevante também levanta o filme daquilo que o Zanin, em sua intervenção, definiu como uma ‘nostalgia’. Só sei que a música em É Tudo Irrelevante me fascinou. Na verdade, nada é irrelevante, e Fernanda Montenegro tem uma frase muito bonita sobre esse ‘nada’ que a assusta, porque é tão imenso quanto ‘tudo’. Amei quando Izabel, para realçar a importância da música na vida de seu pai, escurece a tela e deixa só o som. Lindo! De alguma forma, e mesmo que o filme dela seja melhor, É Tudo Irrelevante e Eu, Meu Pai e os Cariocas terminaram dialogando e se completando no meu imaginário. E tem mais – Hélio passa o filme dizendo que é agnóstico, que não acredita em Deus etc. Na entrevista que fiz com Geoffrey Rush sobre Genius (e Albert Einstein), falamos justamente sobre isso. Como Einstein, que formulou a teoria da relatividade – da mesma forma que Stephen Hawking a teoria de tudo -, chegam a um ponto em que nada se explica, e só Deus explica. Há tanto tempo não vejo um filme de ideias. Sinto que vou ter de ver É Tudo Irrelevante várias vezes, para tentar assimilar tanta informação. Eu digo. Esse É Tudo Verdade está me saindo bom. Antes de terminar, por uma questão de respeito. Os créditos dizem que é um filme ‘de’ Izabel Jaguaribe dirigido por Ernesto Baldan e por ela. Até a estreia – nos cinemas ou diretamente no Canal Brasil? – teremos tempo, espero, de esclarecer a questão.