As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

…E se for a família?

Luiz Carlos Merten

11 de junho de 2013 | 16h07

Permitam-me recuperar o filme que vi ontem pela manhã, antes do que o outro que vi à noite, A Memória Que me Contam, de Lúcia Murat. Minha Mãe É Uma Peça, a adaptação do êxito de Paulo Gustavo, não apenas me divertiu – ele é muito engraçado – como achei uma sacada genial do Paulo e do diretor André Pellenz colocar a mãe de verdade, mais louca que a da ficção (com todo o respeito), no fim. E a Ingrid Guimarães como a perua segunda mulher do ex da ‘mãe’ é outra boa. O filme produzido por minha amiga Iafa Britz me deu ideias. Escrevi repetidas vezes sobre De Pernas pro Ar 1 e 2 e vi sempre nas comédias de Roberto Santucci com Ingrid Guimarães uma preocupação pelo tema da mulher moderna, dividida entre família e carreira, entre amor e trabalho, mas ontem, vendo o Paulo percebi que talvez tenha visto o galo cantar sem saber direito aonde. E se o tema que atrai o público nas comédias de Santucci for, afinal de contas, a família? De Pernas 1 e 2 e Até Que a Sorte nos Separe falam na verdade disso – de famílias modernas, muitas vezes disfuncionais, de mães carreiristas e filhos carentes etc. Se vocês pensarem que Os Penetras, de Andrucha Waddington, foi bem, mas não o estouro que muita gente achava que seria, talvez o motivo fosse este. O filme, afinal, insistia numa ideia do brasileiro safa, bon vivant, não tinha o componente familiar com o qual o público pode se identificar no cinema de Santucci. Será o segredo, mais que o fato de Paulo Cursino (o roteirissta) e ele escreverem para comediantes testados na TV ou no teatro e todos estes filmes terem a Globo por trás? Odeio Dia dos Namorados e Minha Mãe É Uma Peça (embora o diretor seja outro) poderão responder à minha dúvida. O filme não apenas tem uma família totalmente disfuncional como a mãe é interpretada, em travesti, por um homem e essa nostalgia de uma família tradicional, ajustada não deixa de remeter a essa obsessão pelo casamento gay, que muitas vezes parece traduzir um desejo de repetir a experiência hetero. Estava na França quando houve o primeiro casamento entre homens e o modelo era o casamento hetero, sem tirar nem por, exceto que em vez de um noivo e uma noiva, havia dois noivos, com direito a terno, flores, juiz de paz, beijo etc. No caso de Paulo Gustavo, além do humor politicamente incorreto, há uma morte, uma perda que introduz a choradeira (e o melodrama). Ou seja – é um filme para rir e chorar, sobre a vida não idealizada, mas como ela é. Mãe e filhos brigam, se ofendem, mas se amam. Em conversa com Santucci no outro dia, antes que ele embarcasse para os EUA em busca de locações para Até Que a Sorte 2 (em Las Vegas), o próprio diretor levantou essa questão da família. Respondendo a uma pergunta imaginária, se no cinema dele a família seria a solução (e se os filmes, nesse sentido, não seriam conservadores), Santucci disse com toda honestida que não é um pensador nem gosta de idealizar, mas reproduz a sociedade ao redor, e a ansiedade ou a angústia ou os desejos das pessoas, tal como os identifica. Muito interessante. É como não me canso de dizer. Às vezes me problematizo mais com filmes que, para os outros, são descerebrados. Em contrapartida, há muito filme ‘cabeça’ por aí que me parece sem pé nem ela, a cabeça.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.