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E se elas…?

Luiz Carlos Merten

09 de abril de 2014 | 09h50

Mas a nossa ida ao Rio – estou falando de Dib Carneiro e eu – teve outro objetivo, além de ver o infantil de Gabriel Villela. Queria ter visto o debate sobre a obra de Helena Solberg no É Tudo Verdade, mas mal consegui chegar no autógrafo do livro que Maria Tavares dedicou à diretora. Já tive de correr para o Espaço Sesc para ver a a nova ousadia de Christiane Jatahy. Tenho uma admiração sem limites pela Christiane, Jovem, bonita e talentosa, uau. O espetáculo dela compõe um díptico e é uma súmula de suas pesquisas de teatro e cinema. E Se Elas Fossem para Moscou? é a releitura de Christiane da peça Três Irmãs, de Chekhov. O texto está lá, na essência, com direito a diálogos inteiros do dramaturgo. O tempo que passa, seus efeitos nas pessoas, o desejo e a dificuldade de mudar das três irmãs, Olga, Maria e Irina. Mas é um Chekhov revisto e atualizado. multimidiatizado. A gente vê um dia a encenação – vimos no sábado. Em cena, as três irmãs e um grupo reduzido de técnicos que estão ali, munidos de câmeras, gravando o espetáculo. Nos bastidores, como já havia feito em Corte Seco, Christiane edita as imagens colhidas e manda o material para outra sala do complexo, onde outro público assiste ao filme, simultaneamente. Citei o Corte Seco, mas se Christiane antes aproximava teatro e cinema agora ela cria uma terceira zona. Não é simples artifício. Tem tudo a ver com o desejo de mudança do texto chekhoviano. Voltamos no domingo para ver o filme, não a gravação da noite anterior, mas a da encenação daquele dia. Nunca é a mesma peça, nunca é o mesmo filme. Comentei com Christiane, depois. O filme me pareceu mais curto. Na encenação, o olhar se distribui pelo palco, pelas várias ações simultâneas. O filme é mais focado, mais intimista. A seleção de planos e a dinâmica da montagem parecem acelerar o relato, embora o tempo de ambos, da peça e do filme, seja rigorosamente o mesmo. Na peça, há uma cena de sexo. O cara não é ator, é câmera, mas é bom pra cara… Literalmente. A cena é um tesão. Meu lado voyeur ficou antecipando como seria aquilo na tela. Christiane cortou meu barato, mas achei muito bacana que a cena, na tela, não tenha a voltagem erótica do palco. No teatro, ela pode concentrar o olhar. Na tela, a montagem a coloca no contexto de tudo o que se passa, ao mesmo tempo. O mais louco. Não há filme na câmera.  O filme que se faz, sob nossos olhos, não deixa registro. Não creio que exista outro diretor, no mundo, que esteja fazendo o que Christiane faz. E ela trabalha com três atrizes maravilhosas – Isabel Teixeira, que foi uma das rainhas de Cibele Forjat, Júlia Bernat e Stella Rabello. Perguntei-lhe quando volta ao cinema? Christiane tem um projeto com Mariana Lima. Dib me disse depois que pegou mal. Mas ela está fazendo cinema! Está, mas o projeto aqui é multidisciplinar e não são muitos os espectadores de cinema que terminam indo ao teatro para ver cinema!, bradou. Creio que aqui estou misturando uma conversa de mercado. Como o infantil de Gabriel Villela e Luana Piovani, o díptico de Christiane Jathay desembarca em São Paulo só depois da Copa, no Sesc Belenzinho. Antes disso, ela faz uma itinerância pela Europa, mostrando E Se Elas Fossem para Moscou? e a peça anterior, Senhorita Júlia, em diversas cidades, não apenas captais. Strindberg, Chekhov, a releitura dos clássicos por Christiane Jathahy é muito interessante. É me apaixona ver a segurança como Gabriel Villela e ela conceitualizam o próprio trabalho. Paro aqui. Queria escrever sobre a morte de Mickey Rooney, mas estou indo ver Júlio Sumiu, de Roberto Berliner, sobre o qual tenho ouvido maravilhas. A tarde, da redação, eu volto, mas aí vou querer falar também do É Tudo Verdade – hoje tem o documentário de Jorge Furtado sobre imprensa – e o Festival Varilux do Cinema Francês. Até…

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