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E Rosemberg puxou uma sexta-feira de belos programas

Luiz Carlos Merten

28 Janeiro 2017 | 00h45

TIRADENTES – Confesso que andava decepcionado com a Aurora. Debates muito interessantes, mas os filmes… Histórias que Nosso Cinema (não) Contava, de Fernanda Pessoa, exibido na quinta à noite, ressignifica o cinema popular brasileiro da década de 1970, tentando ver o Brasil por meio das pornochanchadas. A diretora e seu montador fizeram um trabalho acurado (e paciente) de imagens, até mesmo resgatando um pornô rotulado de político por Leon Cakoff, na época, com imagens de tortura. Uma greve num bordel, seguida de um acidente na linha de montagem, quando um operário perde o dedo, tem tudo a ver com a realidade e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas eu gostei médio. O filme de 80 minutos me pareceu interminável, até porque, no fundo, o material mostrado termina por se assemelhar, mas é certamente importante refletir sobre esse cinema feito por trabalhadores para trabalhadores, como ressaltou Eduardo Valente. Fernanda expõe a obsessão masculina pelas bundas das mulatas, inclusive criando um bloco sobre ‘domésticas’, mas também mostra, e isso é mais raro, o desejo das mulheres pelos músculos dos operários da construção civil. Muito interessante, repito, mas foi na sexta – ontem – que as coisas se animaram para mim. Gostei muito de rever Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho, que me parece o filme inquieto por excelência, segundo a definição do curador Cléber Eduardo, da programação inteira deste ano, mas o Guerra passou em outra mostra, a Olhos Livres, podendo concorrer ao prêmio da crítica. Cavi Borges, da Cavi Vídeo, fez a produção executiva e me disse que o filme tem o compromisso de estrear até março, dia 20, no circuito Spcine. Portanto, preparem-se para ir à Galeria Olido, porque será, com certeza, um dos grandes filmes do ano, da década, da história do cinema brasileiro. Comentei com o próprio Rosemberg. O importante é resistir, sobreviver. Foi emocionante ver o velho guerreiro chamado ao palco para apresentar seu filme sob aplausos frenéticos da plateia de jovens. E vieram, depois, os programas que me reconciliaram, com a Aurora. Ouvi duras críticas, que não compartilho, a Corpo Delito, de Pedro Rocha. O filme seria ingênuo e até irresponsável ao mostrar um preso em liberdade condicional, que porta tornozeleira, mas chega um momento em que não aguenta mais e dá um jeito de driblar a vigilância e… No momento em que o Brasil vive essa tremenda crise do sistema penitenciário, que já vinha se anunciando há tempos, o filme seria sob medida para os que acreditam que bandido bom é bandido morto, levantando dúvidas sobre a possibilidade de reinserção social de apenados. Não vi desse jeito, nem como ‘bandido’, e o filme de Pedro Rocha, para mim, dialogou bastante bem com Baronesa, na abertura da Mostra Aurora, mesmo que o filme de Juliana Antunes permaneça, para mim, como o melhor da competição principal. Na sequência, passou Eu não Sou Daqui, de Luiz Felipe Fagundes e Alexandre Baxter, que me pareceu o filme mais terrível, por seu desespero, da programação, mas bom. Espero ter tempo e oportunidade de voltar a falar desses filmes, mas não posso deixar de registrar. Assim como existem Irandhir Santos, Júlio Andrade e João Miguel, existe Rômulo Braga. Puta ator de cinema. Como disse um dos diretores, é a alma de Eu não Sou Daqui. Se não fosse ele, talvez não existisse o filme.