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E que tal discutir um pouco o estado do Brasil, e do mundo?

Luiz Carlos Merten

26 Janeiro 2017 | 19h02

TIRADENTES – Houve agora à tarde um debate ótimo sobre os 10 anos da Mostra Aurora. Percurso em reflexão. Cinco vencedores, Pedro Diógenes, Allan Ribeiro, Thiago Mata Machado, Thiago B. Mendonça e Bruno Safadi, foram chamados a avaliar essa década, o significado da Aurora e os efeitos do prêmio nas próprias trajetórias. Foi emocionante. Meninos, eu estava aqui, e no júri, quando Estrada para Ythaca ganhou. Fui eu que entreguei o prêmio e hoje até choro quando ouço o curador Cleber Eduardo dizer que Ythaca é emblemático, tendo criado o paradigma da Aurora. Cleber não diz de jeito nenhum que a mostra contempla a produção experimental brasileira. É uma vitrine do cinema autoral e independente, mas ao termo ‘experimental’, ele prefere ‘inquieto’. Pedro Diógenes aproveitou para denunciar que uma importante escola de cinema e dança de Fortaleza está sendo ‘descontinuada’ pelo novo governo e Eduardo Valente, ex assessor internacional da Ancine e atual delegado brasileiro na Berlinale, entrou no clima para dizer – havia a suspeita, pois o assunto estava sob júdice, mas agora é oficial. O governo Temer não vai mais contribuir para a manutenção da Escola de Cine e Televisão de Los Baños, em Cuba. Ideologias à parte, a escola criada por Gabriel García Márquez adquiriu renome internacional e abrigou alunos e professores brasileiros aos longo dos últimos 30 anos. Nas mesas de debates têm surgido sinais de inquietação quanto aos próximos rumos da Ancine. Numa possível orientação voltada exclusivamente para o mercado haverá espaço para um cinema inquieto – e crítico – como o de Tiradentes? Em São Paulo, o novo prefeito estende um manto cinza sobre os grafites da era de seu antecessor e promete criar um grafitólogo, certamente bem longe de seus olhos. Que outra coisa esperar de um cara que mora naquele bunker, nos Jardins? Lembram-se dos muros altos dos jardins dos Finzi-Contini? Pois é – tragicamente, não impediram que o nazismo estendesse sua mão de ferro sobre a aristocrática família judaica. O isolamento nunca é garantia de que a realidade não vai bater à nossa porta. Aproveito, já que fui duro com os filmes de Thiago B. Mendonça – gostei da fala dele no debate de hoje – e Renan Rovina, para dizer mais duas ou três coisas sobre Um Filme de Cinema e Sem Raiz. Já contei parte da trama do primeiro – a filha pede a câmera do pai cineasta para fazer um filme na escola, ele reluta (não é coisa de criança!), mas termina cedendo. Chega a ensinar a garota a manusear a câmera. E vem, para mim, a melhor cena do filme – a garota segue o pai com a câmera, ele inicia uma conversa sem pé nem cabeça, a menina envereda por um atalho, segue filmando longe dos olhos do pai e só o encontra mais adiante, quando ele continua falando suas abobrinhas (e nem se deu conta do que ela fez). Sensacional! E no segundo – a protagonista de um dos segmentos quer abrir uma empresa. Vai buscar ajuda especializada. A orientadora pergunta o que se deve pensar em primeiro lugar, ao abrir uma empresa? Sei lá, em fazer o que a gente gostaria? Nãããooooo. Ninguém faz o que quer, ela diz. A gente tem de pensar em termos de mercado. O que vai dar dinheiro? Jesus! Tal é o estado do mundo. Vamos ter de voltar a guerrear por nossos sonhos…