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E Praia do Futuro ficou ainda melhor…

Luiz Carlos Merten

06 de maio de 2014 | 18h51

Fiquei quase o dia inteiro em função de Praia do Futuro. Revi o filme de Karim Ainouz – gostei mais ainda -, assisti à coletiva, fiz minhas individuais. Estamos em maio, já o quinto mês do ano e se começam a desenhar no meu imaginário possíveis destaques do ano. Nada do Oscar 2014, mas, sim, Vidas ao Vento, do japonês Hayao Miyazaki, e os brasileiros Getúlio e Praia do Futuro. Adorei o filme de João Jardim, e me pergunto, o que ainda não pude conferir, como estará indo de bilheteria. Preocupo-me, porque quando a coisa deslancha de cara a assessoria cobre a gente de informação, e até agora nada. Puta filme, o Praia – é o melhor do Karim, o mais ousado como narração, mas não estou muito de acordo com um rumo que a coletiva tomou. Um garoto, não sei se tão garoto assim, interpelou o diretor e seus atores sobre a questão da homossexualidade e talvez não tenha sido muito feliz ao perguntar o que achavam do tópíco ‘sair (ou não) do armário’. Wagner fez uma bela defesa da privacidade – sair do armário é questão de foro íntimo, o que ele faz com a mulher no quarto, o que qualquer pessoa, seja gay ou hetero faz no quarto não deveria ser assunto de jornal nem revista. Entendo que Wagner esteja querendo fugir do sensacionalismo, porque qualquer resposta dele poderia, como poderá,. produzir manchetes. Mas não creio que a questão do cara gay não seja tão importante assim como Wagner, Clemens Shick e Jesuíta Barbosa disseram na coletiva. O filme transcende, vai além, isso sim, mas sem a ‘questão’ gay não haveria Praia do Futuro, ou alguém que já tenha visto o filme e participado de sua intensidade emocional vai dizer, honestamente, que seria a mesma coisa com um casal hetero? Sem o par gay, não haveria Praia do Futuro. O filme não teria razão de ser., mas eu compreendo perfeitamente as camadas. Donato, o irmão mais velho, que abandona a família em Fortaleza e vai se esconder na Alemanha para dar o c… – como lhe atira na cara, cheio de raiva, o caçula que o idolatrava (Jesuíta Barbosa) -, é um pouco o pai de Ayrton e o abandono é um tema muito forte na obra de Karim, porque é forte também na vida dele. Seu pai abandonou a mãe no Brasil e foi viver sua vida no exterior. Toda a obra de Karim Ainouz decorre da sua biografia, mesmo que os filmes não sejam todos autobiográficos. Os elementos estão lá, onipresentes. Não creio que seja só uma curiosidade mórbida, ou vontade de produzir manchetes sensacionalistas, que leva as pessoas a perguntarem sobre o assunto. O sexo é uma atividade mental (também). É importante, é político mostrar com naturalidade o sexo entre iguais em países ainda conservadores como o Brasil. Mas verbalizar também ajuda no desbloqueio. Não é preciso entrar em detalhes, mas o homo-erotismo é decisivo em Praia do Futuro. É um filme sobre a beleza dos corpos masculinos. Wagner e Clemens ficam nus. Existem planos em que Karim corta a cabeça e transforma esses corpos desnudos em estatuária grega. Wagner disse que, de todos os personagens que já fez, Donato, o bombeiro gay, é o que mais se aproxima do Capitão Nascimento de Tropa de Elite 1 e 2. É um gay viril, como na música de Ney Matogrosso – e mesmo que, na hora H, abra-se como uma flor para o amante. É preciso ser muito bom, e muito desprendido, acreditar no que faz – e se lixar para a imagem – para fazer aquelas cenas. Wagner, aliás, disse na coletiva que ‘tanto faz’, sobre a possível reação do público – se não entender, se não gostar. Puta cabra macho, sô. Gosto do filme inteiro, mas duas cenas, para mim, já nasceram clássicas, antológicas. Todo o filme é muito físico, mas quando Ayrton reencontra Donato, suas palavras são cuspidas, viram agressão física, porrada mesmo. Palavras não dão conta. A outra é quando o alemão canta e dança Aline. J’avais dessiné/sur le sable/son doux visage, qui me sourriait… Não menos clássica é a cena da praia sem água. Schamus on you, Mr. James. O presidente do júri de Berlim, James Schamus, que fez todos aqueles filmes (gays?) de Ang Lee, mais do que qualquer pessoas, deveria ter entendido Praia do Futuro e premiado o filme, em fevereiro.

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