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E por falar em pedofilia, o ‘meu’ Fuller

Luiz Carlos Merten

03 de abril de 2020 | 10h48

Falei no outro dia da pedofilia em Giselle e o assunto ficou comigo. Voltou quando já havia me deitado para dormir. Há um culto a Samuel Fuller e seus filmes de gênero nos anos 1950 – westerns, filmes de guerra, policiais. Gosto de muitos deles e, no meu imaginário, há espaço para um filme que não dispõe de muita reputação – High and Hell Water/Tormenta Sob os Mares, de 1953. Foi dos primeiros cinemascopes, e o formato não parecia o mais adequado para um drama que se passa todo no interior de um submarino. Como se reproduz a claustrofobia numa tela larga, que parece favorizar os exteriores? Nunca me esqueci da cena em que a tripulação, asfixiada pela falta de oxigênio, consegue subir à superfície e marinheiros e tripulantes saem em disparada pela extensão da embarcação, em busca do ar. Pela artificialidade da cor, pelas silhuetas, fico imaginando, agora, no retrospecto, enquanto revejo mentalmente a cena, que deve ter sido filmada nos estúdios da Fox. Fuller! Casa de Bambu, Renegando o Meu Sangue, Dragões da Violência, O Quimono Escarlate, A Lei dos Marginais, Mortos Que Caminham, Paixões que Alucinam, The Big Red One/Agonia e Glória, The White Dog. São filmes cuja estética expressa aquilo que Fuller diz para a câmera de Jean Luc Godard em Pierrot le Fou/O Demônio das Onze Horas – “O cinema é um campo de batalha.” Chego agora à questão da pedofilia. Por mais que goste desses filmes, o ‘meu’ Fuller é Beijo Amargo/The Naked Kiss, de 1964. A abertura já tira o espectador dos trilhos. Rapidamente, sabemos tudo sobre Constance Towers (numa interpretação antológica, mas que, claro, nem lhe valeu indicação para o Oscar). Ela bate, selvagemente, no cafetão que tomou seu dinheiro. Cansada da vida como p…, ela muda-se para cidade do interior, onde se dedica a cuidar de crianças deficientes. Sofre com o preconceito da comunidade, mas segue em frente. Casa-se com o poderoso local, e aí descobre que ele quer usá-la como fachada. É pedófilo, molestador de crianças – o ricaço que todo mundo respeita. Ela poderia silenciar e seguir, hipocritamente, como a primeira dama da localidade, mas não seria uma heroína de Fuller, se assim fizesse. Reage, de novo com violência. A comunidade, as pessoas ditas ‘normais’, ficam contra ela. (O marido lhe joga na cara que a escolheu por ser ‘abnormal’.) Sou louco, sempre fui, por esse Fuller. O gênero levado ao limite – um melodrama atravessado pela violência extrema. Guerra à pedofilia. Há 56 anos, quando temas como esse ainda eram tabu. (No ano seguinte, Otto Preminger fez sua última obra-prima noir, Bunny Lake Desapareceu, em que Carol Lynley procura o filho e a polícia desconfia de que o bebê nunca existiu. O abuso está presente, mas não é a mesma coisa.) Sinceramente, não sei a quem podem interessar essas minhas ‘viagens’ pela história do cinema, pelos filmes que me moldaram. O que sei é que gosto disso. Em tempos de isolacionamento social, mantenho-me ativo, ocupado. É muito importante manter a disciplina – a rotina.

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