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É, ou não é?

Luiz Carlos Merten

31 Julho 2012 | 09h27

Tentei ontem postar de novo, não consegui. Tive de redigir às pressas o texto sobre a morte de Chris Marker e nem falei nada sobre ele aqui no blog. O dia foi agitado, com uma reunião de pauta longa e, à noite, em casa, quando tentei retomar os posts, o laptop deu pau. No domingo, como disse, saí impactado da Galeria Olido depois de ver ‘O Fantasma do Paraíso’. Corri para a Reserva Cultural para (re)ver o ‘Fausto’ de Sokurov. Jantei no bistrô – um delicioso risoto de carne seca com abóbora, acompanhado de vinho (Syrah) e de sobremesa abacaxi com raspinha de limão. Hummmm! Acho que me havia forrado antecipando o suplício do filme. Quase caí da poltrona. ‘Fausto’ foi precedido por imagens de ‘O Cangaceiro’, o clássico de Lima Barreto. A cena em que Galdino (Milton Ribeiro) aplica um corretivo no cabra da peste para saber onde está Teodoro. É uma das minhas cenas preferidas, e o formato quadrado da tela cria uma espécie de concentração da imagem, muito interessante. Entraram as imagens de ‘Fausto’. Como? Tela quadrada, de novo? Espero não prejudicar ninguém, mas quando assisti ao filme, numa sessão só para mim, a imagem ocupava toda a tela. Por isso eu não conseguia entender quando as pessoas – Camila Molina – me falavam no filme como uma intensa experiência (audio)visual. O ‘Fausto’ que havia visto tinha uma imagem distorcida, às vezes parecia envolta numa névoa, e o interessante é que a própria legenda não me parecia deformada, porque aí eu teria percebido que algo não ia bem. Os meus motivos para não gostar do filme de Sokurov – o conservadorismo de Goethe, que ele encampa para servir ao próprio sentimento antirrevolucionário, já expresso na ‘Arca Russa’ – permanecem intactos, mas pelo menos eu percebo agora o espanto que as imagens do filme provocaram em Veneza (e provocam em toda parte). O filme é muito elaborado, e fecha com pesquisas da imagem que o diretor desenvolveu em ‘Moloch’, ‘O Sol’ e ‘Helena’ (os dois últimos são os filmes dele de que realmente gosto). Mas eu acho que vou ter ver o filme pela terceira vez. Talvez chegue próximo do final. Por que a tela quadrada? Meu editor, João Luiz Sampaio, me havia perguntado e eu não entendi a pergunta, dei-lhe uma resposta desaforada qualquer. O quadrado é uma forma perfeita, que não existe na natureza. Sokurov com certeza está querendo dizer alguma coisa, mas o que me chamou  a atenção, no limite, é, na cena do gêiser, a água que jorra de uma abertura… Quadrada! Se a forma não existe na natureza e pressupõe o conhecimento de geometria, Sokurov constroi ali sua metáfora. O gêiser, a tela. Estarei delirando? Aquele orifício é mesmo quadrado? Vocês podem até me poupar de ter que rever. É, ou não é?