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E os meus melhores vão se delineando, aguardem!

Luiz Carlos Merten

30 de dezembro de 2019 | 23h20

Cá estou, nesta noite de 30 de dezembro, em casa, iniciando meus últimos posts do ano. Despede-se 2019, avulta no horizonte 2020. Que venha! Quero me afastar cada vez mais de 2018, ano de rupturas, crises, cirurgias, mas agora já consigo ver com clareza e certo distanciamento. Transformação, transformações. Vivi tanto tempo amarrado, é bom cortar as amarras, ser livre. No domingo, almocei com a Lúcia no L’Apero, planejando a ida para a Europa, em fevereiro. Alguns dias em Portugal, com Doris e ela, depois Berlim, depois Paris. Agora, em janeiro, estarei oficialmente de férias, mas meu editor, Ubiratan Brasil, me quer na redação no domingo, 5, por causa do Globo de Ouro, e depois na segunda, 13 por causa do anúncio do Oscar. Estou pensando se volto ao Chile, para o Santiago a Mil, ou a Tiradentes, para a Mostra Aurora e aquelas pedras irregulares dos calçamentos que destroçaram meu joelho há quase dois anos. Carlos, o físio, diz que nunca estive melhor, fisicamente, mas é só eu parar, como as quase duas semanas que fiquei no Rio, pelo festival, para o condicionamento ir para o beleléu. Tergiverso, e é chegado o tempo das retrospectivas. Fui rever ontem o Star Wars Episódio IX e gostei mais ainda de A Ascensão Skywalker. JJ Abrams criou aqueles personagens, ao reformatar o roteiro original de George Lucas. O roteiro de Chris Terrio e dele é apenas baseado nos personagens de Lucas, informam os créditos. Senti melhor o que ele quis dizer ao afirmar que não conseguiria fazer o filme sem Carrie Fisher e o grande desafio foi resolver o impasse da presenças post-mortem da atriz como Leia Organa. Não valeria reconstitui-la digitalmente, como Ang Lee fez com o jovem Will Smith e não deu muito certo em Projeto Gemini. E por que Leia é tão importante? Olha o spoiler – porque é ela, pelo sacrifício, que resgata o filho, Ben, da área sombria da Força, em que Adam Driver estava condenado a ser Kilo Ren. Puta ator é esse Driver. A intensidade do amor, do desejo por Rey/Daisy Ridley, vai na contramão da ligação que se dissolve em História de Um Casamento, de Noah Baumbach, e ele é magnífico nos dois. No amor e no ódio, Rey e Kilo são antinômios como os personagens dos westerns de Budd Boetticher, o mocinho e o bandido, duas faces da mesma moeda. E quando o drama se resolve, e é esse o sentido do episódio IX, dá para ver que JJ e Terrio conhecem os sublimes melodramas do rei Vidor com Jennifer Jones. Pearl Chavez em Duelo ao Sol e Ruby Gentry têm essa mesma necessidade de expiar a dor na solidão. Pois em meio à explosão de alegria da celebração coletiva – a vitória! – é disso que trata o filme. O que se ganha e o que se perde – não é assim na vida? Leia Organa evoca outra mãe no universo de JJ, a do garoto órfão de Super 8. Ele olha para a mãe que perdeu naquele retrato e reencontra seu olhar no monstro do espaço, que todos temem e/ou querem destruir. Só ele, na sua solidão, entende a da criatura, numa radical aceitação do outro, a quem passa a ajudar. São os enigmas que o cinema me leva a decifrar, num exercício permanente de (auto)descobertas. Já fiz listas de melhores – três nacionais e três estrangeiros para o Divirta-se, o guia do Estado, e os cinco melhores para o Caderno 2, lista que fechei com quatro nacionais e um estrangeiro. No ano da revolta dos excluídos, não teria hesitado em escolher Os Miseráveis, mas o Ladj Ly ficou paras o ano que vem e sobraram o Coringa e Parasita. Por mais admiração que tenha pelo Bong Joon-ho, não consigo saber quanto gosto do filme dele. Gosto das disfunção social, da casa e da forma como a família de baixo vai ocupando o espaço dos ricos. Os pobres parecem parasitas, mas os verdadeiros parasitas são os ricos – não é sempre assim? Veja-se a reforma da Previdência no Brasil. O problema, para mim, é que Bong arma uma tese, interessante por certo, mas só consegue solucioná-la por meio de um artifício, um morticínio coletivo que carrega, creio, certa facilidade farsesca. Gosto mais dos filmes de monstros de Bong – O Hospedeiro e Okja – e tenho de admitir que gosto muito mais do sul-coreano do ano passado, Lee Chang-dong, cujo Em Chamas/Burning, foi meu melhor filme de 2018. Gosto tanto de Em Chamas que me parece heresia comparar a ele outro filme, provocativo por certo, mas não tão bom, como Parasita. Tenho escolhido o Todd Phillips, Coringa, mas intimamente carrego comigo que meu melhor filme internacional não se enquadra nessa revolta social dos excluídos. Dor e Glória, do Almodóvar, tem mais a ver, é primo-irmão de A Rosa Azul de Novalis, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro. A fetichização do pênis no Almodóvar, a do ânus no filme nacional. Deus e a beleza estão em toda parte, até naquele c… pulsante e cada um busca sua rosa azul onde pode, ou onde acha que vai encontrá-la. Minhas listas definitivas estão surgindo. Vou fazer uma de melhores nacionais, outra de estrangeiros e fundir as duas. O cinema brasileiro não é gênero e muito menos inferior ao que se faz no mundo. Só nosso complexo de vira-lata nos condena ao autossabotamento. Aguardem amanhã.

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