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E o Shell, hein? Babaya, Marco e uma certa conversa sobre carne negra

Luiz Carlos Merten

23 de março de 2019 | 12h22

Fiz uma pequena correção no post anterior, pois ao encontrar Felipe Hirsch ele me disse que estava jogando o filme com Alice Braga para o ano que vem – e digitei 2019. O tempo não para, Merten. Já estamos encerrando o primeiro trimestre de 2019. Será 2020! Daqui a dias, em 6 de abril, estarei comemorando – não sei se se comemora isso – o inferno astral que começou com a cirurgia de joelho, cirurgia essa que dois médicos que consultei depois dizem que eu ‘talvez’ não devesse ter feito. Ai, confiança… Tive uma semana agitada – filmes, cabines, médicos. Não tive tempo de postar nada sobre o Shell. Regina Duarte foi finalista a melhor atriz, por O Leão no Inverno. Não sei quem vota no prêmio, mas me pareceu uma demência. Quando vi a peça senti uma coisa esquisita. Regina atuava num tom, numa direção, e o restante do elenco em outro. Não pareciam a mesma peça. Perguntando aqui e ali, tentando me informar, descobri que ela usa ponto, o que explicava, para mim, o estranhamento. Regina não levou o Shell, que foi para Chris Couto, a Milionária, e eu fico me perguntando se o júri do Shell não aposta no glamour. Parece a Academia dos anos 1950, quando não havia representatividade e os negros não chegavam ao pódio. Vi as quatro indicadas, até gostei da Chris, mas a melhor atriz do ano, para mim, foi Lucélia Sérgio, de A Navalha na Carne Negra. O Shell vai ter de começar a incluir a representatividade em seu prêmio, não como cota, mas como merecimento. Quando a melhor fica fora, e é negra, tem algo errado. Pelo que li, Vilma Melo entregou o prêmio de direção para Zé Henrique de Paula, por Um Panorama Visto da Ponte, e lembrou no palco – ‘A carne mais barata do mercado é a carne negra’, sendo aplaudida pela plateia. Aplauso, sim, prêmio que é bom, neca. Na verdade pesquisei para saber se Gabriel Vilela concorria. Estado de Sítio ganhou indicações em figurino, cenário e música. Só levou o último, para Babaya Morais e Marco França. Merecia mais, mas sou eu achando. Sobre Chris Couto não posso deixar de assinalar que A Milionária, escrito por George Bernard Shaw nos anos 1930, após a grande crise da Bolsa de 1929, trata de concentração de renda e do poder do dinheiro, mas em chave intimista, para destacar a necessidade de afeto. Nunca havia visto a peça montada, mas vi o filme de Anthony Asquith, de 1960, com Sophia Loren e Peter Sellers. The Millionairess virou Com Milhões e Sem Carinho no Brasil, título que entrega a essência – a crise de afeto – da montagem de Thiago Ledier. Anthony Asquith! Filho de um premier britânico, ele virou o representante máximo de um refinamento glacial contra o qual se insurgiu o free cinema, contemporâneo, do outro lado da Mancha, da nouvelle vague. Os críticos costumam ser duros com Asquith. Eu fecho com David Mamet e não abro – The Winslow Boy/Um Caso de Honra, de 1949, baseado no texto de Terence Rattigan, é maravilhoso. Mamet fez até a versão dele, O Cadete Winslow, da qual gosto muito, mas a de Asquith é melhor. Anthony ficou famoso com o seu Pigmalião, com Leslie Howard, ainda nos anos 1930. Lembro-me, olhem a loucura, de haver visto Com Milhões e Sem Carinho numa sessão noturna, numa noite de inverno, em Porto Alegre. Frio de rachar. Voltei a pé para casa, e o cinema não era muito perto. Peter Sellers faz um socialista indiano e Sophia é a milionária. Não duvido que Blake Edwards tenha escolhido Sellers para ser o Inspetor Clouseau e, depois, Hrundi Bakshi, o ator indiano de Um Convidado bem Trapalhão, por causa desse filme. Nunca mais revi Com Milhões e sem Carinho, mas, na época, Dalton Trumbo, graças a Otto Premninger (Exodus) e Kirk Douglas (Spartacus), estava saindo da lista negra e eu tenho certeza, a memória não pode estar falhando, que o diálogo de Asquith, não o de Shaw, faz referência ao macarthismo. Minha outra lembrança do filme é puramente visual. Diz respeito ao figurino de Sophia. Se as roupas expressam a riqueza da personagem, o bom-gosto de Asquith, mesmo quando exagera – ela usa um chapelão que Robert Altman repetiu depois em Prêt-à-Porter -, garante que a elegância seja minimal, sem ostentação.

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