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Mostra (13)/E ‘O Pacto de Adriana’ começou com briga

Luiz Carlos Merten

06 de novembro de 2017 | 09h52

Na recente novela de Gloria Perez, A Força do Querer, Bibi/Juliana Paes, seduzida pelo poder, o dinheiro – pelo glamour da bandidagem -, ia ser rainha do tráfico com Rubinho. Não pude deixar de pensar no discurso de Bibi quando Chany tenta explicar à sobrinha porque foi agente da Dina, a temível polícia secreta de Pinochet. Ela fala em festas, jantares, em sentar-se ao lado de embaixadores e reis. O Pacto de Adriana é o do silêncio. Chany é Adriana. Tenta convencer a sobrinha, a diretora Lissette Orozco, de que não era um monstro. De que nunca torturou nem matou, mas os testemunhos dos outros, das ex-colegas, a incriminam. As mulheres da repressão. Adriana era pior que qualquer homem, o jornalista dá seu depoimento, a partir das informações que colheu. As feministas devem estar mortificadas. O Pacto de Adriana é sobre essa sobrinha que realiza um documentário sobre a tia que era o orgulho da família – a mais bem sucedida de todos – e, agora, na Austrália, está sendo extraditada para responder a seus crimes, no Chile, durante a ditadura. A sobrinha a entrevista por skype. Chany/Adriana Reyes jura que não é aquilo que dizem. E chora, desespera-se. Num determinado momento de sua fala, diz que, na contra-insurgência, aprende-se a ser ator, atriz, parta ganhar a confiança dos prisioneiros. Ela representa? Muito provavelmente. O Pacto de Adriana me proporcionou a mais terrível experiência dessa Mostra. Tive outras, mas essa foi brutal. Aos 72 anos e um milhão de filmes depois, ainda não desenvolvi mecanismos de autoproteção. Os filmes ainda me levam a lugares que me maravilham, horrorizam. Mexem comigo. A sessão de O Pacto de Adriana começou com confusão. Longe de onde estava, teve gente trocando tapas. Não estava entendendo nada, mas do meu lado um carinha tomou partido, decretou quem era o vilão e berrava para que tirassem um sujeito da sala. Estamos, no Brasil, nesse momento de ânimos acirrados. No filme, a diretora, tentando entender a história da tia, a história do Chile, vai a uma manifestação pró-Pinochet. Senhoras que parecem respeitáveis, jovens, etc, seguram cartazes que defendem atrocidades. Tortura, nunca mais? Não – tortura, sim, é a única arma contra ‘essa’ gente. É o que dizem os cartazes, não o que penso. O horror, o horror. As palavras de ordem – o clima – são as mesmas que estamos vivenciando no Brasil. Gente apoiando Jair Bolsonaro, pedindo a volta dos militares. E a tia que culpa os ‘comunistas’ por tudo. Pelas suas desgraças como as do país. O Pacto de Adriana não se propõe como experiência ‘estética’. Mas é um choque – foi, para mim. O filme coloca questões éticas que me perturbaram. A tia, ao aceitar ser personagem, com certeza achava que o filme a defenderia. Um pacto de família. Ela chega a pedir à sobrinha que ameace pessoas. A última fala da tia, descontextualizada – não sabemos em que momento foi dita -, é “Agora só te importa o filme.” Ela fala para a sobrinha. Intui que Lissette Orozco vai se afastar dela, em definitivo. Não consigo avaliar (ainda) quanto gostei de O Pacto de Adriana, mas ver o filme foi forte. Muito forte.

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