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E o Oscar, hein? A Vida Invisível, out; Democracia em Vertigem, in

Luiz Carlos Merten

17 de dezembro de 2019 | 10h45

RIO – Cada dia é um dia. Ontem, vivi intensamente a expectativa pela divulgação da shortlist do Oscar de filme internacional. O anúncio foi feito às 7 da noite, do Brasil, e aí, como mestre da complicação, dei um jeito de tumultuar ainda mais minha vida. Havia sido da sucursal para ir ao cinema, na volta peguei um táxi da rua e… Onde estão meus óculos? Dei-me conta de que enxergo muito bem para longe – a tela de cinema, legendas -, mas, para perto, sou uma negação. A ideia, caso A Vida Invisível ficasse entre os dez, seria trocar a capa de Os Dois Papas. Não sei se teria conseguido fazer. O texto pequeno da página 4 já foi um sacrifício. Espero que a análise faça sentido. Olhava para a tela e estava tudo embaralhado, não conseguia ler o que estava escrevendo. O horror, o horror. A surpresa é que o Brasil terminou entrando em outra shortlist – a de documentário de longa-metragem. Petra Costa! Na segunda-feira da semana, na APCA, votamos em Democracia em Vertigem como melhor documentário do ano. Havia outros grandes documentários, mas eu defendi o da Petra por sua importância. Rica, nascida numa família de empreiteiros – a nossa Visconti de saias -, só ela, ou os irmãos Salles, João e Walter, poderiam, fazer essa análise numa perspectiva de classe, admitindo que, houve sim, golpe. É o tema de Edge of Democracy. será que Petra vai quebrar o encanto? Ganhar o Oscar que o Brasil busca tanto? Torço por ela, torço mesmo. Entre os (pré-)indicados para melhor filme internacional estão Parasita, de Bong Joon-ho, e Les Misérables, de Ladj Ly, que já estão entre os finalistas do Globo de Ouro da categoria, mais o Almodóvar, Dor e Glória, e aquele filme da Macedônia a que assistimos na Mostra – Honeyland, de Tamnara Kotevska e Ljubomir Stefanov. Um documentário reconstituído, à Robert Flaherty? Não – para a Academia é ficção, senão estaria concorrendo com a Petra. Tenho falado muito na revolta dos excluídos como o grande tema do ano que se encerra, e a Academia avalizou o que tenho tido. Muito provavelmente, teremos o Coringa na competição de melhor filme. Parasita e Les Misérables inscrevem-se na tendência. Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, também está nela. Houve uma polarização entre Bacurau e A Vida Invisível na disputa pela indicação do Brasil. Pela segunda vez, após Aquarius, Kleber foi preterido. Assim como um antipetismo, há um antikleberismo na indicação para o Oscar. Não há nenhuma garantia de que Bacurau teria ficado na shortlist, se tivesse sido o indicado. O argentino A Odisseia dos Tontos também expressa a revolta dos excluídos, e não ficou. Aliás, nenhum latino ficou na shortlist. Mas a discussão prossegue. O Brasil nunca escolhe seu representante. Escolhe os filmes que as comissões acham que têm chances. No caso de A Vida Invisível, eram o produtor, Rodrigo Teixeira, e a atriz, a grande Fernanda Montenegro – a ‘sórdida’, segundo Roberto Alvim; achei hilário quando ele, defendendo sua arte ‘pura’, disse que ‘até’ Fernanda poderia pedir patrocínio para projetos responsáveis -, ambos conhecidos na indústria dos EUA. Não deu certo, mais uma vez. O negócio é começarmos a pensar com a cabeça do Brasil, não do Oscar, mas isso já venho dizendo há anos.

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