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E o Kikito…? (9)

Luiz Carlos Merten

10 de agosto de 2015 | 15h42

GRAMADO – Murilo Salles disse há pouco, no debate de seu filme O Fim e os Meios, que, ‘como todo o mundo’, é um pouco bonzinho, corrupto, escroto. E acrescentou – todo diretor é (escroto). Talvez haja um pouco de tudo isso no filme. De cara, uma constatação. O júri de Gramado bem poderia fazer justiça a Cíntia Rosa, outorgando-lhe o Kikito de melhor atriz, que ela, criminosamente, perdeu no Festival do Rio – ela e Clarissa Pinheiro, também magnífica em Casagrande, de Fellipe Barbosa. O papel de Clarissa comporta certa polêmica. Ela tanto poderia ser melhor atriz como melhor coadjuvante, e na dúvida o júri não lhe deu Redentor nenhum. Cíntia é a protagonista feminina absoluta de O Fim e os Meios. Foi esquecida igual. Faz uma jornalista política que se muda para Brasília com, o marido marqueteiro (Pedro Brício). Ele se envolve na campanha de reeleição de um senador de Alagoas. O genro do senador, a quem Brício se reporta, também é político. Marco Ricca é quem faz o papel. Durante todo o filme, Brício fica tentando se aproximar da mulher e consertar o casamento. Numa cena, presumivelmente num hotel, junta as duas camas separadas. O gesto simples comporta um significado simbólico. Quando fazem sexo, a mulher e ele, percebe-se sua inadequação. Cíntia, a repórter, torna-se amante do político. Enlouquece de desejo. Ricca termina por rechaça-la quando Cíntia rasteja mendigando por atenção. O filme tem esse background da política de Brasília. Corrupção, claro. Ricca é poderoso, logo, bom de cama. Simples assim? Pode ser. Murilo comparou Cris, a personagem de Cíntia Rosa, a Anna Karenina. Citou Freud e Lacan. O poder da vagina. O Fim e os Meios é sobre o empoderamento da mulher, por mais que palavra irrite ou enerve algumas pessoas. Em pauta, o poder de Cris de escolher para quem quer dar, ou com quem gozar. Com o marido, não, mas ela termina lhe sendo fiel de outra maneira. O tema do triângulo é muito interessante em O Fim e os Meios. O empoderamento da mulher, que, justiça seja feita, também está em Introdução à Música do Sangue, de Luiz Carlos Lacerda, inclui Hermila Guedes, como uma política que está morrendo de câncer. Quando ela morre, é a morte da ética na política, um tema muito atual no Brasil. O Fim e os Meios possui qualidades. Murilo Salles filma bem, e não é de hoje. Poderia citar três ou quatro cenas primorosas como mise-em-scène. Seu uso das casas, do espaço, é uma coisa que o define e vem desde o primeiro longa, Nunca Fomos tão Felizes – apresentado e premiado aqui mesmo em Gramado, e acho que em Brasília também, teria de pesquisar -, com aqueles suntuosos e ritualísticos movimentos de câmera no apartamento desmobiliado. Mas se o filme convence como estudo de personagens, e suas relações, não me convence tanto como painel político. O triângulo funcionaria igual numa escola, numa repartição, no carnaval. Talvez não houvesse essa contaminação do sexo pelo poder e pelo dinheiro (e vice-versa). É só isso, realmente, que está faltando na onda de denúncias que assola Brasília e o Congresso Nacional. Murilo diz que seu tema é o Brasil. Fez a sua revisão de Raízes do Brasil. Sérgio Buarque de Hollanda. A questão do sexo, do desejo, é visceral. Em duas cenas, e com significados diversos, a definição ‘neguinha gostosa’ é aplicada a Cris/Cíntia. Casa Grande (e senzala). O tema está presente aqui em Gramado em Que Horas Ela Volta?, o longa de Anna Muylaert, e no curta O Muro, de Eliane Scardovelli, sobre a vizinhança de uma favela e um condomínio de luxo. O festival chega exatamente ao meio nas projeções desta noite. Teremos um filme de Brasília (O Último Cine Drive-in, de Iberê Carvalho, cuja produtora é sócia do filme de Murilo) e o colombiano Ella. Pode ser que discordem de mim, mas a Colômbia faz hoje o mais interessante cinema de Latino América. A história do velho que busca dinheiro para enterrar a mulher me atrai mesmo antes de ver Ella. Espero que o longa de Líbia Stella Gómez segure esse meu interesse.