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E o Kikito… (8)

Luiz Carlos Merten

09 Agosto 2015 | 17h40

GRAMADO – Matheus, da assessoria de imprensa do festival, me lembra que Daniel Filho não foi o primeiro e que, no ano passado, o clipe do Canal Brasil sobre outro homenageado – Jean Pierre Noher, Kikito de Cristal – também prescindia de fala e era formado só de imagens. Devo ter esquecido porque não existe Kikito mais absurdo do que aquele para mim. Corro o risco de comprar uma briga com Maria do Rosário Caetano, que adora o cara, mas comigo não. Em comparação, Fernando Solanas, homenageado deste ano, deveria ganhar o quê? Kikito de diamante? Ó céus. Tivemos hoje um belo debate sobre o concorrente uruguaio, Zanahoria/Cenoura, de Enrique Buchichio, e outro muito engraçado sobre o brasileiro Introdução à Música do Sangue, de Luiz Carlos Lacerda. Não conheço outro diretor, no mundo, que tenha esse fair-play e receba as críticas com a serenidade do Bigode, e o respeito, e admiro, por isso. Escrevi outro dia, não lembro mais se no blog ou no impresso, ou no online, que os diretores de blockbusters andam cada vez melhores (Colin Trevorrow, …) enquanto o cinema de autor anda meio estagnado. Celso Sabadin diria que é o meu jeito, sempre querendo causar, mas é verdade. Este ano, em Cannes, por mais digna que possa ter sido a vitória de Jacques Audiard com Dheepan – uma vitória da persistência, considerando-se quantas vezes ele concorreu -, a minha Palma teria ido para Hou Hsiao-hsien, por A Assassina, ou para Stéphane Brizé, por La Loi du Marché. Em outras seções, teria premiado o Apichatpong, Cemetery of Splendour, mais que o Miguel Gomes de As 1001 Noites (gostei só do segundo volet da trilogia). Isso posto, quero dizer que minha visão é compartilhada pelos críticos de duas publicações em língua inglesa que comprei na banca do Conjunto Nacional, antes de viajar para Gramado. Film Comment e Cinema Scope. Li no caminho e descobri que não estou sozinho. Aleluia! É verdade que muitas vezes cerro fileiras com Rodrigo Fonseca, que também ficou perturbado com o curta Herói e concorda que a lágrima do síndico é a melhor coisa de Muro, outro curta da competição. Mas o que quero escrever agora equivale a uma remexida na memória. Film Comment dedica páginas a uma reavaliação de Jack Garfein. Jack quem? Lembrei-me de P.F., Gastal, no antigo Correio do Povo. Por volta de 1960, Garfein era casado com Carroll Baker e a dirigiu num filme chamado Something Wild, homônimo do Totalmente Selvagem de Jonathan DEmme, nos anos 1980. O de Garfein, de 1961, chamou-se no Brasil Quando a Vida É Cruel. Décadas antes de Gaspar Noë, Irreversível, Garfein contou a história de uma mulher estuprada, a jovem Carroll. Ela surta, isola-se, torna-se agorafóbica. E aí surge esse estranho que a recolhe e acolhe, leva para casa e tenta estuprá-la de novo. Ela resiste, foge (ele a havia prendido em casa), mas volta e dá por vontade o que ele queria obter pela violência. Imagino feministas de carteirinha, como Maria do Rosário Caetano e Neuza Barbosa, reagindo ao post (e a Garfein). O filme estava no meu imaginário, soterrado por camadas. Veio-me inteiro. Gastal, que não havia gostado muito, comparava os flash-backs e flash-forwards de Carroll no filme com imagens do Alain Resnais de Hiroshima, Meu Amor. Li em Film Comment que o novo culto a Jack Garfein surgiu quando Ben Gazzara foi homenageado com uma retrospectiva, não lembro se em Pordenone ou Turim, mas era num desses festivais de cinema ritrovatto. Ele apresentava as sessões de seus filmes – como a matéria não fornece a programação, não sei se passou Forever, que Gazzara fez no Brasil com Walter Hugo Khouri em 1991, mas duvido  que sim. Na hora de apresentar The Strange one/O Rancoroso, de 1957, o ator disse que não sabia se o diretor estava vivo. Era Garfein, que fez muito teatro (e dirigiu James Dean) e no cinema fez apenas dois filmes independentes, O Rancoroso e Quando a Vida É Cruel, mais o documentário A Journey Back, regressando a Auschwitz, onde ele, como menino judeu, foi internado e sobreviveu, vendo morrerem pais e irmãos. Imediatamente, foi desencadeada a caça a Garfein e, sim, ele estava e continua vivo. Desde então, foi redescoberto e ganhou homenagens e retrospectivas em festivais (UCLA, Telluride etc).  Adoro essas histórias de fantasmas e ressurreições. Artistas que estavam adiante de sua época, foram massacrados – pela crítica como pelo público – e sobreviveram para recontar a história. Não sei dizer se Something Wild é bom, mas lembro-me de cenas inteiras com Carroll Baker e Ralph Meeker. Ela, muito Actors Studio; ele, monolítico como em A Morte num Beijo, o clássico de Robert Aldrich em que protagonizou Mike Hammer, o detetive particular criado por Mickey Spillane. A cena do estupro no parque segue viva na minha lembrança. O pavor nos olhos de Carroll Baker, o grito preso na garganta. A cena me marcou porque é contemporânea de Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, que tem o estupro de Nadia/Annie Girardot por Simone/Renato Salvatori. Gostaria que algum festival brasileiro (o Rio? A Mostra?) revisitasse a obra de Jack Garfein. Ou, quem sabe, que a Versátil fizesse esse resgate para a gente em DVD.