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E o Kikito… (7)

Luiz Carlos Merten

09 Agosto 2015 | 11h14

GRAMADO – Alguém me soprou no ouvido que a seleção de curtas do Festival de Gramado era a melhor em temporadas, senão décadas. Devia, esse alguém, estar brincando. Já vi quatro curtas e, com exceção de Bá, salto de um desapontamento a outro. Mas temos os longas da competição. Os latinos estão melhores que os brasileiros, mas é recém o começo. Ontem, tivemos um duplo formado por Zanahoria/Cenoura, do Uruguai, e Introdução à Música do Sangue, do Brasil, entremeados, os filmes, pela homenagem a Daniel Filho. Daniel é certamente uma figura visceral do cinema brasileiro. Foi emotivo. Vendo o clipe do Canal Brasil – o único, que me lembre, nesses anos todos, que nega a palavra ao homenageado, sendo feito só de imagens -, disse que ninguém constrói uma carreira sem parcerias, sem amigos. Daniel, como ator, produtor, diretor e roteirista, deve ter feito muitos amigos, mas também fez inimigos, sou forçado a reconhecer. A homenagem a ele foi a mais fria de que me lembro. Fui dos raros que se levantaram para aplaudir. E aqui se levantam por qualquer um. Insisto – o meu Daniel é o ator, mas o respeito como homem integral de cinema e TV. E Daniel surpreende sempre. Na coletiva, citou Cantando na Chuva como seu filme favorito – também era o de Cosme Alves Netto, como revela o documentário de Aurélio Michiles, Tudo por Amor ao Cinema -, e o coloca no mesmo patamar do outro preferido, Ladrões de Bicicletas. E, para um produtor e diretor de filmes populares, Daniel tem um gosto muito sofisticado. Ama Asghar Farhadi e Michael Haneke, para não falar de Bela Tarr, e todos são o suprassumo do cinema de autor. Daniel lembrou, a pedido de Ivonete Pinto, da revista Teorema, a célebre cena de Norma Bengell nua em Os Cafajestes. Ele está mais uma vez associado a Ruy Guerra no novo filme do diretor, Quase Memória. Rodrigo Fonseca, que já viu, disse que é genial. E olhem que Rodrigo, como eu, não é um entusiasta de Veneno da Madrugada, Espero que o filme esteja no Festival do Rio. Estou nos cascos para ver. Gostei de Cenoura, que vi com o coração na mão. Um thriller político que gera mal-estar, sobre dois jornalistas envolvidos por um informante que promete revelações bombásticas sobre os porões da ditadura militar uruguaia. O clima é sinistro, e as revelações não vêm. É o anti-thriller, o anti-herói. Muito interessante. É mais do que posso dizer de Introdução à Música do Sangue, novo tributo de Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, a Lúcio Cardoso. Gostei de algumas imagens de interiores, à luz de velas (Rembrandt?), e da dupla jovem. A cena de sexo, tenho de admitir, excitou meu lado voyeur. Mas cheguei ao limite do constrangimento vendo representar dois atores que admiro,  Bete Mendes e Nei Latorraca. Nei retorce os olhos para mostrar desejo. É uma interpretação expressionista. Lembrei-me o tempo todo de Nosferatu. Há algo de Inocência na personagem da garota, na sua descoberta da sensualidade, no rito de passagem. Alguma coisa também me lembrou Marcada Carne, mas sem a pegada do humor de André Klotzel. Só um parêntese – o garoto do filme, Armando Babaioff, com seu jeito de agroboy, como disse Maria do Rosário Caetano, é ator do filme que Roberto Gervitz fez no Rio Grande do Sul, Prova de Coragem, e vai para Brasília e um festival no Canadá; é a hora dele. Com todo respeito por Bigode – comentei com o diretor que revi outro dia na TV For all – O Trampolim da Vitória e não conseguia desgrudar o olho de Luiz Carlos Tourinho, meu xará, maravilhoso -, queria que o tempo passasse logo. O fim me chegou como uma libertação.