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E o Kikito… (6)

Luiz Carlos Merten

08 de agosto de 2015 | 17h02

GRAMADO – Mantenho o título, mas vou fazer uma pausa na cobertura de Gramado para falar de dois lançamentos em DVD da Versátil. O volume 3 da coletânea Filme noir, com obras de John Huston (O Segredo das Jóias), Jules Dassin (Sombras do Mal) e Anthony Mann (Mercado Humano), e a caixa de Robert Altman, com três títulos mais um documentário sobre o autor. Meninos, eu vi. Não apenas já era jornalista de cinema (na Folha da Manhã) como assisti à estreia de MASH no antigo cinema Imperial, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre. O Imperial lançava a produção da Fox. Naquele tempo, os filmes não entravam imediatamente, e até simultaneamente com os EUA, como hoje. MASH ganhou a Palma de Ouro de 1970. Pode ter estreado mais para o fim do ano, ou em 1971. Teria de pesquisar. A irreverência de Altman, aplicada a um tema grave como a guerra, provocou sensação. E todo mundo sabia que Altman, ao investir contra a Guerra da Coreia, na realidade visava a do Vietnã. Mais que a canalhice dos médicos da unidade móvel do hospital do Exército (Elliott Gould e Donald Sutherland), a gente ria com a enfermeira Lábios Ardentes, Sally Kellerman. Acho que, em 1972, Altman voltou a Cannes com Imagens e, ou eu me engano muito ou Susannah York ganhou o prêmio de melhor atriz do festival. Eu amava Imagens, mais que MASH. O filme me intrigava. Mais tarde, tive a chance de encontrar-me três vezes com Altman. Quando ele voltou a Cannes e renasceu, após uma fase ruim, com o plano sequência deslumbrante do começo de O Jogador/The Producer ; depois com Kansas City, de novo em Cannes, e, finalmente, em Berlim, com A Última Noite. Tenho de contar que meu primeiro encontro com ele foi desastroso. Inventei de dizer que seu método de soltar a câmera entre diversos personagens era uma lição/herança de Luís Buñuel e ele se irritou, porque disse que não copiava ninguém. Lembrou-se disso, de novo, quando o entrevistei por Kansas City. Em 2006, na época de A Última Noite, estava tão debilitado que não me surpreendeu nem um pouco que tenha morrido naquele mesmo ano, em novembro, aos 81 anos. Eu gostava de Altman – Imagens, McCabe & Mrs. Miller – Onde os Homens são Homens (depois rebatizado como Jogos e Trapaças), Um Perigoso Adeus, Jogando com a Sorte e o melhor de todos, Nashville. Depois, meio que perdi a paciência com ele, que parecia se repetir. Assassinato em Gosford Park é a diluição de Jean Renoir (A Regra do Jogo) numa trama à Agatha Christie, e olhem que gosto da dama do mistério. Mas confesso que achei muito interessante a caixa da Versátil. Renegados até a Última Rajada é o Bonnie & Clyde de Altman, adaptado (com liberdade) do mesmo livro que inspirou a versão de Nicholas Ray, Amarga Esperança ou They Live by Night. Gosto demais da versão de Arthur Penn para pensar sequer em compará-la com a de Altman. Não daria nem para a saída, mas gosto de Shelley Duvall, bem mais próxima de Cathy O’Donnell (na versão de Ray) que da sensualidade de Faye Dunaway (na de Penn). Em compensação, amo Um Perigoso Adeus e a cena final, a alegria selvagem de Elliott Gould avançando por aquele túnel de árvores, depois de fazer o que fez, é o plano que resta, se tivesse de escolher apenas um, de todo o cinema de Altman. Por volta de 1970, Hollywood redescobrira a tradição noir e o private eye, o detetive particular. Altman foi acusado de trair/deturpar Raymond Chandler e seu herói, Philip Marlowe, que transformou em anti-herói. Mas eu acho que, naquele momento da ‘América’, atolada no Vietnã e com a eclosão do escândalo de Watergate, o que ele fez foi atualizar/reinventar Chandler (e Marlowe). Nota 10. Meu sentimento por Três Mulheres é mais ambivalente. As três mulheres naquela clínica me parecem muito com Imagens, agora num formato de thriller psicológico mais acentuado (Imagens é onírico, com a história do unicórnio), mas gosto muito do uso que o diretor faz do formato cinemascope (e das piscinas), e também das atrizes. Shelley Duval, que ganhou melhor atriz em Cannes, Sissy Spacek e Janice Rule são todas ótimas. Janice era uma das minhas fantasias – desde que a vi brincar com a pistola em Caçada Humana, de Penn. A outra caixa, de filme noir, resgata desde o clássico The Asphalt Jungle, com seu assalto (im)perfeito, até obras menos reputadas, mas não menos notáveis. Sombras do Mal/Night and the City transforma Richard Widmark num apostador que tenta lucrar no mundo noturno das lutas programadas em Londres e termina vítima do esquema que arma. Não sou dos que subestimam Jules Dassin, mesmo na sua fase final, com Melina Mercouri, mas o final dos anos 1940 e início dos 50 o trazem no melhor de sua forma. E ainda tem o Anthony Mann. Por mais que goste de John Huston, principalmente o posterior a Os Pecados de Todos Nós (1966), a série de westerns de Mann com James Stewart e os épicos El Cid e A Queda do Império Romano, no qual Glauber Rocha bebeu (estou convencido) para fazer Terra em Transe, compõem uma espécie de Bíblia do cinema para mim. Mercado Humano/Border Incident, de 1949, passa-se na fronteira mexicana, onde um agente federal dos EUA une-se a colega do México para desmontar esquemas de trabalho ilegal e tráfico de pessoas. A crítica francesa sempre considerou os westerns de Mann os mais puros de todos. Dos noir, pode-se dizer o mesmo. O trabalho do diretor com o fotógrafo John Alton (pseudônimo do imigrante húngaro Johann Jacob Altmann, vejam só) é uma súmula do estilo em ângulos de câmera e iluminação claro-escura. Cinéfilos de carteirinha vão amar as duas caixas.

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