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E o Kikito… (4)

Luiz Carlos Merten

08 Agosto 2015 | 15h24

GRAMADO – Qualquer teórico da relatividade do tempo deveria passar pelo Festival de Gramado para provar a veracidade de suas ideias. Quando a voz misteriosa que comanda as ações anuncia ‘Começa em 5 minutos’, você pode contabilizar 15 ou 20. É sempre assim. Tudo atrasa além da conta, e ontem as sessões terminaram passando da uma da manhã. Quem lucra com isso? Ver um filme exigente como o mexicano En la Estancia a essa hora não é nada bom. Muitos espectadores saíram reclamando – ‘Gostaria de ter visto em melhores condições…’ Quem não? Para complicar, os restaurantes estavam fechados. Êta nóis… Depois de 40 anos – 43, para ser exato -, o festival continua amador. Um redesenho da programação, mas qual?, seria muito bem-vindo para evitar o que houve ontem, e ocorre sempre. Um quarto da sala para ver o concorrente mexicano, e bem menos que isso ao final da sessão. O festival começou com um belo curta de Leandro Tadashi, Bá, inspirado na figura da avó o diretor que faz um doutorado de cinema na UCLA. Prosseguiu com Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, que revi. Para ser honesto comigo mesmo, tenho de dizer que gostei menos de algumas coisas e mais de outras. Como eu mesmo tenho feito ilações entre o filme de Anna e O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, e Casagrande, de Fellipe Barbosa, o melhor dos três, acho interessante reproduzir o que disse a própria diretora. Embora esse projeto já estivesse com ela há 20 anos, o filme de Kleber foi decisivo para a formatação do que ela queria fazer. Sobre o de Fellipe, Anna é mais ambivalente. Diz que o filme dela é o Casagrande que permanece na cozinha, enquanto o de Fellipe encara a luta de classes da sala. Que Horas Ela Volta? é muito rico em metáforas e símbolos. A doméstica (Regina Casé) compra um aparelho de café para dar de presente de aniversário à patroa (Karina Teles). A patroa acha o presente brega e o esconde. É um aparelho formado de peças brancas e pretas, mas que devem ficar desencontradas. Gostei mais de muita coisa, mas de nada mais do que a cena em que Val/Regina se despede de Fabinho, o filho da patroa, que criou como se fosse dela. A cena evocou para mim Os Brutos também Amam/Shane, o clássico de George Stevens, a cena em que Joey se despede de Alan Ladd, chama-o, uma sombra passa pelo seu olhar e compreendemos que Joey está completando o rito de passagem. Fabinho vai embora, deixa de ser o menino de Val. Talvez vire, no futuro, patrão como a mãe. O olhar de Val marca a consciência – ela percebe que é agora ou nunca que deve se dedicar à filha. É lindo. Mas, de resto, em relação a Casagrande e O Som ao Redor, o filme me pareceu o mais explicativo dos três, e isso me incomodou. Maria do Rosário Caetano me corrigiu. Disse que num filme de mulher, a definição certa não é explicativo, é lúdico. Falei em colocar as coisas preto no branco e Anna Muylaert disse que não entendia o que estava querendo dizer, mas entendeu, sim.  Bem no finalzinho, reparem quando virem, as xícaras se acertam. Branco no branco, preto no preto. Anna creditou o fato a um erro de continuidade, mas se foi tenho de pensar comigo que o continuísta, ou a continuísta, foi quem mais entendeu o filme. Que Horas Ela Volta? estreia dia 27 nos cinemas brasileiros. Estreia no mesmo dia nos EUA. Torço para que Regina, alavancada pelo prêmio que recebeu em Sundance, seja indicada para o Oscar de melhor atriz. Que Horas Ela Volta? está fazendo bela carreira nos cinemas da Europa – na França, na Itália. Espero que vá bem no Brasil. Sua vocação é ser um filme de massas, e não só pela presença de Regina Casé. O fato de ser explicativo, perdão, lúdico, mais que Casagrande, que também poderia aspirar a ser o candidato brasileiro no Oscar 2016, aponta nessa direção. E ainda não falei no mexicano. En la Estancia, de Carlos Armella, dá a impressão de ser um documentário rodado numa cidade fantasma, aonde moram apenas duas pessoas, pai e filho. Mas é ficção, e as relações são muito complexas. O documentarista, que faz o filme dentro do filme, tem ligação com os outros dois personagens. Há uma morte serena e outra violenta. Nada é fácil, mas eu fiquei muito intrigado pelo filme, por sua forma. O mais curioso foi descobrir, nos créditos finais, que En la Estancia foi produzido por Alejandro González-Iñárritu. O tempo do filme, a sensação de isolamento, a concentração de personagens e ambientes, tudo tenderia a me fazer aproximar o universo de Armella do que Carlos Reygadas, a resposta mexicana a Terrence Malick (e melhor que o gringo), muito mais que a Iñárritu. Gostei dos atores, Gilberto Barraza e Natalia Satto, que estão na serra gaúcha. Ela é argentina. Ele é mexicano, de Ciudad Juarez, que o cinema pinta como o lugar mais violento da Terra. Sua mãe ainda mora lá. Barraza me disse que violência chama violência. Provavelmente, se andasse de faca na bota Ciudad Juarez responderia com violência para ele. Como não é o caso, não tem essa visão de sua cidade. Como o filme, achei Barraza muito bom.