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E o Kikito… (15)

Luiz Carlos Merten

15 Agosto 2015 | 10h39

GRAMADO – Não vou dar conta, nesse que talvez será meu último post daqui de Gramado  – neste ano, que fique claro, espero -, de falar sobre Ponto Zero. O longa do gaúcho José Pedro Goulart era talvez o filme mais aguardado dessa 43.ª edição. Queira ou não, Zé Pedro é um diretor mítico no cinema gaúcho. Teve uma parceria importantíssima com Jorge Furtado, da qual resultou o curta O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda, que no ano que vem comemora 30 anos. Diversas vezes, Zé Pedro ameaçou fazer seu longa, mas as circunstâncias – uma vez, foi Collor – o impediram. Finalmente, ele o fez, e se há uma coisa que não se pode negar a Ponto Zero é ambição estética. Um garoto, uma família disfuncional, uma longa noite de loucuras. Tive a impressão, assistindo a Ponto Zero, que Zé Pedro havia filtrado Depois de Horas, o cult de Martin Scorsese sobre o coito interrompido, pelos mergulhos de Burt Lancaster nas piscinas de The Swimmer/O Enigma de Uma Vida, de Frank Perry, o mais psicanalítico dos autores norte-americanos, goste-se ou não dele. Burt Lancaster, o nadador, mergulhava no próprio inconsciente. O garoto de Ponto Zero, também. É o único que pode se salvar a si mesmo no filme. Vendo Zé Pedro e seus técnicos e autores falarem – o mistério que cercou a realização do filme; o garoto, por exemplo, nunca leu o roteiro -, fiz outra associação. Terrence Malick, claro. Toda aquela água… Não gosto muito de Malick, ou melhor, não gosto da sua mitificação. Gostei lá atrás, quando ele fez Badlands, Terra de Ninguém. ´Depois, fui me desinteressando, e o filme dele este ano em Berlim foi o ó. Com toda minha admiração pelo partido técnico/estético radical de Ponto Zero, não creio que tenha gostado de verdade do filme de Zé Pedro Goulart. Detestei a mãe, que é a maior responsável pelo bullyng que o filho sofre, e essa visão depressiva da juventude – Rodrigo Fonseca me lembrou Snoopy, Charlie Brown -, me aborrece um pouco. Tem um pouco disso em Rumble Fish/O Selvagem da Motocicleta, que não é um grande Francis Ford Coppola – pelo menos não para mim. Mas é um puta filme (Ponto Zero) e não vejo muitas outras alternativas de premiação pelo júri. O outro que me encanta é O Último Cine Drive-in. Também é uma história de pai e filho, mas mais tosca. A perfeição – em termos – versus imperfeição. Não vejo nada mais interessante que isso na competição de Gramado deste ano.