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E o Kikito…? (14)

Luiz Carlos Merten

15 de agosto de 2015 | 10h22

GRAMADO – No post anterior, não me lembrava do nome de Lucas Cassoles e dei um ‘google’ para ver quem era o diretor de O Corpo. Apareceram outros Corpos (no plural). Muitos filmes de curta e longa-metragem, inclusive um, com Antônio Banderas, sobre o corpo de Cristo que é descoberto numa tumba do deserto, originando uma caçada humana ao pesquisador que poderá destruir o mito do Divino, desmontando a tese da ressurreição. Na época, me lembro de ter achado uma porcaria, mas agora, escrevendo aqui, até me pareceu interessante (e gostaria de rever). Li um livro recente que parte dessa premissa, e era bem bom. O Corpo, de Lucas Cassoles, venceu a mostra de curtas gaúchos. Vai repetir o feito hoje à noite? Sorry, Lucas, mas embora teu filme seja muito bem feito, torço pelo Dá Licença de Contar. Pode até ser que os dois diretores, Lucas e Pedro Serrano, queiram continuar no curta, mas vou torcer pelo longa (de ambos). E… Deus! Como, falando do elenco de Pedro Serrano, pude esquecer sua Iracema? Já disse à cubana Maribel García Garzón, de Venecia, que ela é a musa sexy desse festival, mas as brasileiras Cintia Rosa (de O Fim e os Meios) e Aisha Jambo (espero estar acertando o nome da deslumbrante Iracema de Dá Licença de Contar) não são fracas não. Pelo contrário. Poderosas. E vamos aos longas. Quem me acompanha no blog sabe que estou amando os longas latinos, mais que os brasileiros, e sem preconceito nenhum. O problema é de seleção, e não de falta de qualidade da produção nacional. Tenho certeza de que os selecionadores, Rubens Ewald Filho à frente, terão tido seus motivos para escolher esses filmes – a falta de outros? -, mas só louco para achar que foi uma seleção nacional brilhante. Mesmo gostando muito dos concorrentes estrangeiros, tive um choque na quinta à noite ao assistir a Ochentaisete, de Anahi Hoeneisen e Daniel Andrade, do Equador. É um país sem grande tradição cinematográfica, mas foi de lá que veio esse filme maravilhoso. Amizade, tempo. Um grupo de garotos em 1987, uma tragédia, o reencontro anos mais tarde. A diferença que fariam dois segundos na eternidade. E se… Chorei de desidratar vendo Ochentaisete e, se o júri não tiver medo da emoção, o filme leva. É claro que existem outras opções – o colombiano Ella, o cubano Venecia, o uruguaio Zanahorria/Cenoura. O júri até poderia dividir seus prêmios. O excepcional ator colombiano, as atrizes cubanas (um prêmio coletivo), os atores uruguaios (o prêmio especial). E poderia premiar Michel Noher, protagonista (argentino) do filme equatoriano, filho de Jean-Pierre Noher, que ganhou o Kikito de Cristal no ano passado. Ontem, quem  subiu ao palco para outro Kikito de Cristal foi Fernando ‘Pino’ Solanas. Foi breve no agradecimento. Lembrou Glauber, Joaquim Pedro, Leon (Hirszman), com quem compartilhou um sonho de cinema – Novo e Revolucionário. Além de diretor de obras viscerais (La Hora de los Hornos, Tangos Exilios de Gardel,  El Sur), Pino é senador da República Argentina. Tem sído um crítico duro da presidente Cristina Kirchner, mas não usou o foro do festival para fazer proselitismo político. Solanas ama tanto o Brasil que há 23 anos se casou com uma brasileira. Ela subiu ao palco com ele. Uma festa multirracial, colorida de peles, línguas, culturas. Tango e samba. É nesses momentos que amo Gramado e acho que vale a pena estar aqui.