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E o Kikito… (12)

Luiz Carlos Merten

13 de agosto de 2015 | 16h56

GRAMADO – Nem me perguntem como essas coisas ocorrem comigo, mas deve haver um Deus do Cinema vigiando por mim. Almocei com Carlos Eduardo, de Londrina, e a filha dele, Bárbara, como tenho feito todo dia. Carlos Eduardo foi para a assembleia da Abracine e eu, passando pela porta do Palácio dos Festivais, resolvi entrar para conferir um filme que só sabia ser mexicano. Não sabia quem era o diretor, qual a história – nem o título. Olhem o Deus Cinema vigiando por mim. Vi o melhor filme do festival – Con el Alma en Una Pieza, La Leyenda del Personal, de Jorge Bidault, O pessoal que cobre música talvez tenha registro dessa banda tão efêmera quanto mítica. El Personal teve três formações ao longo de sua história, até terminar definitivamente. Na origem, tinha dois integrantes gays, que morreram de aids. Um era o vocalista, além de compositor. O cara que entrou para substitui-lo também morreu de aids. Vi empolgado, e chorando. Nunca vi um documentário musical tão taco no taco. É feito de entrevistas, e alguma narração. O ritmo é ágil e a música do Personal é pura alegria. Raízes mexicanas filtradas pelo rock. Mas há um subtexto nisso. O que divide as pessoas, ao invés de unir. E o impacto da aids como doença de homossexuais numa sociedade machista como a mexicana. Lembrei-me da capa de Veja sobre ‘a agonia em praça pública’ de Cazuza. Estava numa barbearia de Pinheiros quando o rádio anunciou sua morte. Nunca me esqueço – o barbeiro, certamente leitor da revista e incitado pela homofobia que a matéria destilava, disse, reparem bem, ‘Ainda bem que esse viado fdp morreu.” Lembrei-me dessas histórias, dos amigos que morreram da síndrome. Vou tentar descobrir mais sobre Jorge Bidault, para tentar entender melhor seu filme e o impacto que me produziu. Murilo Salles entrou hoje na sala de debates com diretores para tecer duas ou três considerações sobre o politicamente correto que está amordaçando o cinema. Em princípio, sou, ou seria, a favor dele, ou do politicamente incorreto, mas suas observações sobre o filme Haram, de Max Guggino, egípcio de ascendência árabe e italiana, radicado na Bahia, me pareceram equivocadas. O filme é sobre a détente entre uma mulher árabe, produto de uma sociedade repressiva (e ela usa a burca), e uma garota baiana. Apesar das diferenças culturais, elas terminam por se comunicar através da música. A mulher tem uma cicatriz no rosto, que a atriz assimilou como produto da violência doméstica. Para o diretor, o significado é outro. Está ligado à guerra no Oriente Médio. Mas, como ele não esclarece, cabe a nós, o público, fazermos nossa leitura (e interpretação). Murilo interveio para dizer como o diretor deveria ter feito, esclarecendo uma possível violência doméstica. Como assim, um diretor dizendo a outro o que deveria ter feito? Luiz Carlos Lacerda volta e meia me acusa de tentar dirigir seu olhar e dizer como ele deveria fazer seus filmes. Não é verdade. Se o fizesse, e ele me ouvisse, seu filme seria Morte em Veneza das goiabeiras e a garota seria um garoto, ou pelo menos uma Diadorim. Ouso dizer que Introdução à Música do Sangue seria menos ruim ou até melhor, mas o olhar é dele, do diretor, as escolhas são dele. Já que ousei dizer uma coisa, vou ousar outra. Gostei de alguns curtas, e pode ser que surjam até melhores nos dois últimos dias da competição, hoje e amanhã, mas eu, no júri, ia fazer um auê por Haram. Depois dos curtas, no plural – o outro, Macapá, com uma cena que o diretor tirou de um longa dele que ainda está inédito e me pareceu bom -, tivemos os debates de longas. Por mais defeitos que tenha Presos, da Costa Rica, e nem sinto que são tantos assim, o filme de Estebán Ramírez sobre uma garota de classe média que se envolve com um presidiário me emocionou em muitas cenas e me deixou siderado com seu final aberto. Inclusive, do jeito que o vi e não foi o jeito como o diretor o concebeu – mas ele reconhece que há mais de uma leitura possível -, esse desfecho me pareceu bem subversivo da dramaturgia de Presos. É um fecho original para um filme realista mas um tanto desequilibrado e que parecia estar trilhando uma vertente previsível – gostei. Gostei ainda mais ao saber que Estebán se inspirou num documentário que seu pai fez há décadas, e do qual ele usa cenas (depoimentos) nos créditos finais.. Interpelei-o no debate sobre os atores, que me pareceram autores do próprio texto – uma tendência desse festival -, e Estebán contou que houve muita preparação, mas, na hora H, ele ligava a câmera e entregava seu filme ao elenco (e os presidiários são presos de verdade!). Tudo isso é mais do que posso dizer de O Outro Lado do Paraíso, de André Ristum. É bem acabado, bem-feito (é André Ristum, afinal), mas me decepciona. Aquela narrativa off me derruba.

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