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E o Kikito…? (11)

Luiz Carlos Merten

12 de agosto de 2015 | 19h12

GRAMADO – Como diria Margo Channing, preparem-se (amarrem os cintos) porque o post vai ser longo, não sei se necessariamente, ou consequentemente, turbulento. Participei agora à tarde de uma mesa para comemorar os 50 anos de lançamento de Trajetórias do Cinema Moderno, livro emblemático de Enéas de Souza que teve reedições em 1974 e 2007 (espero estar acertando as datas). Participamos Luiz Zanin e eu, com o próprio Enéas. É uma das minhas referências, não só como teórico, mais do que crítico, mas também como pessoa. Enéas, Jefferson Barros, José Onofre. A conversa foi muito interessante, mas gostaria de ter retomado velhas referências do próprio Enéas. Comecei a publicar só em 1966 e, portanto, só lia os textos dele. Um, emblemático, sobre 55 Dias de Pequim, que Enéas analisava com sua tradicional preocupação com a estética da imagem, na contracorrente do comprometimento político que fazia do épico de Nicholas Ray o elogio do colonialismo, segundo a mentalidade da época. Naquele tempo, todo mundo era mais A Chinesa, de Jean-Luc Godard, mesmo que o filme tenha surgido dois ou três anos mais tarde. Hoje, com todas as mudanças econômicas e sociais ocorridas na China pós-Mao, tenho sempre a impressão, ao rever trechos do filme na TV, de que Ray, na verdade, estava sendo profético. Nós é que éramos ingênuos, amando tanto a revolução. Enéas também escreveu não me lembro mais sobre qual western de Anthony Mann, um dos diretores que estão em meu panteão. Para mim, Terra em Transe, de Glauber Rocha, sai (todo!) da derrocada de Roma, segundo Mann, em especial da cena de Sophia Loren enlouquecida nas ruas de Roma, conclamando o povo a reagir à venda do império. Sei que parece louco, mas Glauber gostava de westerns – tem uma entrevista dele no arquivo do Estado, da época de Antônio das Mortes/O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, em que esclarece isso – e A Queda do Império Romano abriu Cannes, com pompa e circunstancia, no ano em que Glauber apresentou Deus e o Diabo na Terra do Sol. Não posso provar que ele viu, mas se o fez o filme ficou em seu imaginário e ele o assimilou. Tergiverso. Os debates da manhã, o encontro com Enéas, as matérias que tinha para o Estado de amanhã (já redigi e enviei), tudo terminou por me atrasar (essa mania que a gente tem de almoçar!) e eu perdi a hora do filme do filho de Enéas, Fabiano de Souza, Nós Duas Descendo a Escada, que passou à tarde na mostra gaúcha. Estava nos cascos para ver. Preciso agora dar um  jeito de recuperar, viu, Fabiano? Quero dizer que assisti ao curta do Rio Grande do Norte, Seu Inácio, sobre uma figura emblemática do pensamento cinematográfico de Natal. Havia visitado a locadora de Hebert (ou será Ebert?) que vende DVDs de filmes de arte no mercado da capital do Rio Grande do Norte e, no final, Inácio, a quem já conhecia superficialmente, veio me dizer que provoquei um revertério por lá ao gostar de – e defender – 50 Tons de Cinza. Mas como não? Lembro-me que alguém me enviou a crítica da concorrência, assinada por uma sadomasoquista de carteirinha, só podia ser, porque ela falava de cátedra, como entendida, e reclamava da falta de tesão do filme. É uma coisa que não dá para discutir. Tudo bem que tem a hora da fissura, em que vale tudo, mas como explicar que algumas pessoas despertem a libido da gente, e outras não? Eu fiquei no cio vendo o filme, uma cena em especial, e penso que, na realidade, filmes como Hardcore e Gigolô Americano, de Paul Schrader, ou o próprio Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, me estimularam muito menos (embora concorde que sejam melhores). Acho impossível alguém dizer que se excita vendo Império. Como, aquela castração? Acho muito forte, mas broxante, para dizer a verdade. Feita a pausa – tergiverso, de novo -, quero dizer que gostei muito do cubano Venecia, de Kiki Alvarez, que passou ontem à noite na mostra latina. Já é tarde, estou atrasado para a sessão da noite, vou ter de parar, mas o filme cubano é meu tema no Caderno 2 de amanhã. Cuba, a chegada do neoliberalismo à ilha, as transformações, tudo cabe no salão de beleza do filme e nas andanças das três protagonistas na noche de La Habana. “Mas como se pode gastar tanto dinheiro numa noite?”, a pergunta que não quer calar. Um road movie urbano, com atrizes/autoras, como tem sido a tendência desse festival. E personagens como a travesti e o irmão de uma das protagonistas, que encara a outra, o que é aquilo? Estamos tão acostumados a ver e aceitar travas escrotas nos filmes que aquela grandeza, pois é grandeza, nos desconstrói, ou me desconstruiu, propondo uma outra perspectiva, essa, sim, humana. O irmão, contou-me o diretor, é interpretado por um desses artistas de rua que fazem, ou viram. estátuas. Está explicado seu olhar fixo. É impressionante. Não escrevi ontem que espero ser surpreendido, maravilhado? O cubano me surpreendeu, maravilhou.

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