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E o Kikito…? (10)

Luiz Carlos Merten

11 de agosto de 2015 | 18h39

GRAMADO – Gustavo Spolidoro não vai acreditar. Acabo de assistir ao filme dele, Errante, na mostra de inéditos gaúchos, e chorei. Spolidoro realizou um sonho meu. Sair por aí, sem rumo, conhecendo e entrevistando pessoas. Ele o fez munido de uma câmera, Os créditos finais, quando os cães sem dono invadem a Apoteose no Sambódromo do Rio, me fez chorar copiosamente. Havia uma garotada de escola no Palácio dos Festivais. Uma garota me encarou – por que esse velho está chorando (e eu estava)? Já fiz minhas (r)evoluções(?) naquele espaço de euforia, o Sambódromo, Monument Valley do samba. Nos últimos anos, o Festival de Berlim tem coincidido com o carnaval e eu tenho preferido ir para o frio berlinense a me esbaldar no calor carioca. Mas estou ficando velho – 70 anos em 12 de setembro! Não terei mais muito tempo para carnavais (nem Berlinales). E provavelmente não realizarei esse sonho de andarilho. Sempre quis pegar um daqueles ônibus clandestinos que saem de São Paulo, rumo ao Nordeste, e ficam dias na estrada, carregando gente que volta para casa carregando fogão, TV. Quantas histórias! Não farei essa matéria. Alguém poderia fazê-la. Amei o filme do Spolidoro. Gostaria que tivesse entrado na competição. É melhor do que muita coisa que vi. Por falar na competição, assisti na noite de ontem a dois bons curtas – Enquanto o Sangue Coloria a Noite, Eu Olhava as Estrelas e S2. O primeiro tem direção de Felipe Arrojo Poroger, que, há quatro anos, Luiz Zanin e eu escolhemos como o leitor que deveria representar o Estado numa parceria do jornal com o festival. Felipe integrou um dos júris. O curioso é que o Mateus, da assessoria de imprensa, veio me dizer que foi colega de júri do Felipe, indicado por Zero Hora. O filme de Felipe é sobre garoto diferente, que sofre bullyng na escola e tem um irmão que… Não vou entrar em detalhes. Ambos são filhos de um militar entrevado. A rigidez e violência do mundo explodem num final muito forte. Felipe fez o filme com míseros $3.400,00, que usou basicamente para pagar os atores. Ia escrever que é o melhor filme feito com tão pouco dinheiro, mas isso nem chega a ser um elogio. S2, do mato-grossense Bruno Bini, é, comparativamente, mais light. Amor e sexo em tempos de internet. Dois amigos, duas garotas e um ninja. Amores homo e heteros. Múltiplas plataformas – Bini sonha expandir seu curta. Ele tem potencial para virar longa, série. S2 é o ícone que representa coração, ou seja, ‘amo’. S2 encanta pela leveza, o clima, o elenco e, principalmente, o acabamento. Temo estar sendo injusto, mas não me lembro agora de outro filme do Mato Grosso, seja curto ou longa, que tenha visto – e tenha me parecido tão bom. E a noite de ontem teve dois longas. O colombiano Ella, de Libia Stella Gómez-Diaz, não me decepcionou, pelo contrário. Num país em que a vida humana parece não valer nada – a violência é latente -, enterrar os mortos, para quem é pobre, pode ser a coisa mais difícil. Amei a fotografia em preto e branco, com pontuais toques de cor, e o velho que percorre uma via-crúcis para enterrar a companheira, porque acha que ela, tendo uma vida digna, merece um enterro também digno. O ator Humberto Arango veio do teatro. Fez pouco cinema. Ella é seu primeiro filme como protagonista. Por mais que tenha gostado dos atores do uruguaio Zanahoria/Cenoura, eu lhe dava o Kikito de interpretação masculina. O segundo longa de ontem foi o brasileiro O Último Cine Drive-in, do brasiliense Iberê Carvalho, que havia visto no Festival do Rio do ano passado. Gramado está repetindo, na seleção brasileira, alguns filmes que já conhecia. Cine Drive-in está sendo o único de que gostei mais. Vamos (re)ver o Chico Teixeira, Ausência, daqui a pouco. Cine Drive-in une duas vertentes. Um filme de família, sobre o reencontro entre pai e filho, e um filme de cinéfilo, de amor ao cinema. Repito no post o que disse no debate. Cine Drive-in começa tosco, mas foi me ganhando. O elenco é maravilhoso – Othon Bastos, claro, mas os jovens… Breno Nina, que faz o filho, e Fernanda Rocha, mulher do diretor – grávida de seu filho durante a filmagem -, como a projecionista que ocupa no coração do pai o lugar que o garoto tenta retomar, me emocionei muito com os dois (e com o carinho do filho pela mãe). Vocês sabem, vocês me conhecem. Às vezes sou ríspido, cruel, mas isso aqui não é uma ação entre amigos, nunca foi. Quando me derramo em elogios, é porque fui tocado. Não há nada que queira mais do que voltar atrás e elogiar amanhã alguém com quem estou sendo duro hoje. Meu mantra é o que Garbo teria dito a Jean Cocteau, ao entrar na projeção de A Bela e a Fera. ‘Étonne-moi.’ Surpreendam-me, maravilhem-me, e eu me rendo. Posso até aceitar que filmes, peças, canções, qualquer forma de arte, seja feita para provocar, para chocar. Mas, se não tiver contrapartida estética, não me pega. Outro mantra meu é o que disse Vincent Van Gogh em carta a seu irmão Theo. Ele escreveu que a vida já é tão dura. Queria pintar quadros que consolassem. Van Gogh! Meu obrigado aos belos atores de Cine Drive-in. A Chico Sant’Anna, num papel pequeno, mas que sua arte imensa tornou  visceral para mim.

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