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E o happy end na Tailândia, hein?

Luiz Carlos Merten

10 Julho 2018 | 21h37

Foram 18 dias e mais de 400 horas, mas o resgate dos javalis selvagens foi concretizado nesta terça, dia 10, na Tailândia. Doze garotos e seu treinador. Uma caverna inundada. Um esforço multinacional, uma euforia planetária. Do ponto de vista puramente estatístico, deveríamos estar chorando as mais de 150 vítimas das chuvas no Japão, e é claro que elas merecem toda nossa simpatia e respeito. Não há dúvida de que 150, como número, é muito maior que 13. Quantas crianças japonesas? Não sabemos. Já os javalis e seu treinador, tão logo foram encontrados naquela caverna, ganharam um rosto – rostos, no plural. Eu, que sou uma manteiga derretida, chorei quando vi a imagem das ambulâncias com os primeiros meninos chegando ao hospital de Chiang Mai. A solidariedade humana sempre me toca. O esforço coletivo em prol da humanidade, não contra. Mas o tempo todo, como cinéfilo, fiquei com o coração apertado. Agora, com happy end, dá para lembrar. Teria sido de muito mau gosto. Pesava, no meu imaginário, o resgate fracassado da menina no poço de A Era do Rádio, de Woody Allen. O horror, o horror. Resgate, caverna? Impossível não lembrar aquele monstro – o repórter interpretado por Kirk Douglas em A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder. Em baixa na carreira, ele fareja a grande matéria ao descobrir que há um homem preso numa mina. Cria um carnaval, inclusive envolvendo/manipulando/seduzindo a mulher da vítima, que não é flor que se cheire. O pessimismo do cinema foi ultrapassado pelo otimismo da realidade. Foi isso mesmo que escrevi? Num mundo que mata crianças, filhos de imigrantes e refugiados, o que seguimos pela TV foi uma bela fantasia.