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E o Globo de Ouro, hein? Tá me parecendo de lata…

Luiz Carlos Merten

12 de dezembro de 2015 | 09h20

Outro dia Rafael Abreu, que faz a parte de cinema no Guia do Estado, me perguntou se havia gostado de Os Dois Amigos, de Louis Garrel. Respondi que sim e ele, meio maldito, me observou que cada geração tem o Jules e Jim que merece. Anos atrás lembro-me que havia gostado muito de Moulin Rouge e Luiz Zanin Oricchio também tascou essa numa reunião de pauta do Caderno 2 – cada geração tem a Lola Montès que merece. Ocorre que eu sou da geração de Max Ophuls – um pouco posterior, é verdade – e não me empolguei com Lola Montès, quando vi o filme restaurado. Em contrapartida, viajei tanto no musical de Baz Luhrmann que cheguei a escrever um livro – Cinema, Da Realidade ao Artifício – para tentar dar conta da minha admiração. Por que escrevo isso? Ah, sim, cada geração tem o Dirk Bogarde que merece. O da atual é Kevin Spacey. O cara ganhou duas vezes o Oscar – melhor coadjuvante por Os Suspeitos em 1995 e melhor ator por Beleza Americana em 1999, o ano em que Russell Crowe deveria ter vencido por O Informante -, mais não sei quantos Globos de Ouro, Emmys etc. Kevin Spacey é um pouco o Meryl Streep versão masculina, he-he. Fui fazer não sei que pesquisa e descobri que a indicação de Wagner Moura para o Globo de Ouro de melhor ator de série dramática por Narcos foi comemorada de forma um tanto torta. Wagner teria tomado o lugar de Kevin. Ainda querem que ele ganhe mais prêmios. Haja estante na sua casa. Não discuto que Kevin Spacey seja bom, mas quando é ruim é péssimo. Sua interpretação em K-Pax é uma vergonha no currículo de qualquer ator e quando me lembro dele são os papeis que vêm – K-PAX, horrível, Seven – Os Sete Crimes Capitais, ótimo. Quando Kevin contracena com Russell Crowe em Los Angeles – Cidade Proibida, de Curtis Hanson, só tenho olhos para o outro, que engole sua afetação meio gay. (Era o tempo em que Crowe ainda não havias virado astro. Era melhor.) Volto ao Globo de Ouro. Havia a expectativa de que Anna Muylaert, com Que Horas Ela Volta?, ficasse entre as indicações para o prêmio, que precede o Oscar. Há tempos que o troféu da Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood não é mais parâmetro para a Academia, mas quem sabe? Que Horas Ela Volta? não ganhou indicação nenhuma – nem filme nem atriz, e também havia expectativa por Regina Casé, depois que ganhou o prêmio em Sundance. Em compensação, a Argentina está de novo no páreo, com O Clã, de Pablo Trapero, embora tudo leve a crer que será o ano de O Filho de Saul, de Laslo Nemes, no Oscar como no Globo de Ouro. Ando tendo problemas com Wagner Moura, ou melhor, ele anda tendo problemas comigo, mas isso não me impede de ter ficado feliz com sua indicação. Neguinho que reclamava do sotaque de Wagner como Pablo Escobar agora comemora a indicação, como se desde o começo tivesse ficado encantado(a) com seu trabalho em Narcos. E, gente, esse Globo de Ouro é o que o finado Sérgio Porto, ou Estanislau Ponte Preta, chamaria de samba do criolo doido. Não gosto de Perdido em Marte, mas não creio que o filme de Ridley Scott seja ridículo involuntário a ponto de provocar o riso e justificar a indicação para melhor comédia ou musical. A trilha também não justifica. Cate Blanchett e Rooney Mara foram indicadas para melhor atriz, por Carol, no Globo de Ouro, mas Cate concorre a melhor atriz e Rooney a melhor coadjuvante no SAG Award, que foi anunciado no mesmo dia. Só para lembrar, Rooney ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes, em maio, ex-aequo com a Emmanuelle Bercot de Mon Roi. Alicia Vikander foi indicada para melhor atriz no SAG e a melhor coadjuvante no Globo de Ouro, ou o inverso, por A Garota Dinamarquesa. Dá para entender? Eu não consigo. Por que essa gente não se acerta? Gostei demais de Estrada da Fúria e fiquei feliz com os prêmios que o filme ganhou do National Board of Review dos EUA. O novo Mad Max foi indicado para melhor drama. OK. Mas porque a Charlize Theron não concorre a melhor atriz? Ela dá um baile em qualquer outra, mas o papel é de ação, e ação não conta. Daniel Day-Lewis ganhou três vezes o Oscar, o que faz dele recorde absoluto na história. Nenhum outro ator – atores maiores – venceu tanto. Eddie Redmayne leva jeito de estar indo para seu segundo Oscar, tal a comoção provocada por sua transexual, a garota dinamarquesa. Justiça seja feita. Ele ficou até mais bonito como ‘ela’. E eu gosto de Tom Hooper, não de O Discurso do Rei – a realeza inglesa não me comove – mas de Os Miseráveis. As cenas da Comuna de Paris justificam não o filme, mas o próprio cinema. A sorte está lançada. A temporada de Oscar já começou. Mas, para mim, esse Globo de Ouro tá bem de lata.

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