As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

E o futuro é… Hoje!

Luiz Carlos Merten

21 Outubro 2015 | 10h08

Em 1985, os filmes não demoravam mais para chegar – antes, só estreavam um ou dois anos depois. Naquela época já estava batendo nos 40 quando vi o primeiro De Volta para o Futuro. Embarquei na fantasia de Robert Zemeckis, que já havia feito um filme legal, Febre de Juventude, sobre as origens da Beatlemania na ‘América’. Embarquei de cara na saga do jovem Marty McFly/Michael J. Fox, que começa como um infortúnio. Ter aquele pai covarde, a mãe que come e fala demais… Marty viaja no tempo, no DeLorean envenenado do cientista ‘Doc’, Christopher Lloyd, e chega aos anos 1950, quando seus pais eram jovens. O pai já era covarde, a mãe era um vulcão sexual que imediatamente interessa-se pelo novo colega descolado. O duplo desafio de Marty é voltar para o futuro e canalizar a energia sexual da futura mãe para o futuro pai – de forma a que possa nascer. Lea Thompson era uma coisa há 30 anos. O filme estourou, mas passaram-se quatro antes até que surgisse De Volta para o Futuro 2. Foi em 1989, há 26 anos. Dessa vez, Marty e Doc direcionavam o DeLorean para o futuro e o futuro era… Hoje! Dia 21 de outubro de 2015. No futuro idealizado por Zemeckis e seus roteiristas, Tubarão, o blockbuster de Steven Spielberg, estava no número, sei lá, 19 ou 23, os tênis amarravam-se sozinhos e os skates eram voadores. Nada disso se configurou, mas era um futuro bem divertido e, no fundo, provinciano, na pequena cidade. No ano seguinte, surgiu o 3 e o DeLorean ia parar no Velho Oeste. Cada um terá seu favorito na série. O edipianismo do primeiro, as tentativas de antecipação futurista do segundo e o gatilho rápido dos mocinhos no terceiro. No futuro de Zemeckis não havia smartphones – eu devo viver nessa outra dimensão. Não consigo escolher entre os três filmes. O primeiro é tão bom. Tem a cena antológica em que Marty encontra o tio ainda bebê, no chiqueirinho. No mundo de onde ele vem, o tio está preso e Marty diz que é bom o tio ir-se acostumando… E ninguém acredita quando Marty conta que Ronald Reagan será presidente. O 2 tem até mais pique, mas o 3, com seu clima de western, me toca de maneira especial. Já era uma despedida carinhosa do gênero que um dia foi chamado de ‘americano por excelência’. A trajetória de Zemeckis seguiu ziguezagueante, mas ele ganhou o Oscar (por Forrest Gump) e assina agora, com A Travessia, seu melhor filme em décadas. O futuro não sorriu para Michael J. Fox, que ganhou todos aqueles prêmios (Emmys, Globos de Ouro e Actors Guild), mas contraiu o Mal de Parkinson e, desde então, tem sido guerreiro na defesa das pesquisas com células-tronco, a expectativa de que ajudem a curar doenças debilitantes. Lea Thompson fez outro filme de que gosto muito – o totalmente mítico Amanhecer Violento, de John Milius, que muita gente acha reacionário, sobre aqueles garotos e garotas que se unem para impedir que russos e cubanos invadam os EUA – e conheceu o futuro marido, o diretor Howard Deutch, quando fizeram Alguém Muito Especial, em 1989. Estão juntos até hoje. Crispin Glover, o pai covarde, virou um ator bissexto mas cult (O Povo Contra Larry Flint, As Panteras, Beoulf, Alice no País das Maravilhas). E Thomas F. Wilson, que faz Biff, que atormenta Crispin Glover a série toda, multiplicou seus talentos como escritor, músico e pintor. Pergunto-me o que toda essa gente estará pensando nesse dia especial. Imagino que outros, e até sei ‘quens’, vão achar essa cultura pop bem tola. Eu não consigo deixar de pensar que a fantasia de Zemeckis ajudou a esculpir meu imaginário. E agradeço, por isso.