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E o Cristo segue de braços abertos. Urbi et orbem

Luiz Carlos Merten

13 Outubro 2018 | 10h35

RIO – Depois de dois dias encoberto, o Cristo reapareceu, glorioso. Vejo-o da janela do meu quarto de hotel, os braços abertos sobre a cidade, o Brasil – e o mundo. Bem que estamos precisando. Desci para o café sem os óculos, que necessito para leitura – são para perto. Folheei o jornal, olhando as figuras. Regina Duarte abraçando Bolsonaro, Bolsonaro fugindo de João Dória, que não vai apoiar em São Paulo – e o Alckmin, que disse que foi traído pelo último. Podemos estar na m…, mas agora, pelo menos, todo mundo sabe quem é quem. Caíram todas as máscaras, e digo isso com certa tristeza, porque, para mim, caíram também no plano privado. Chega de mentira. Não estou amargurado. É melhor assim – saber quem estará do nosso lado na trincheira, e na alegria e na dor. Meu primeiro dia, na quinta, foi corrido por causa da visita ao set. Na minha vinda anterior ao Rio, fui a uma cabine naquele conjunto de salas do Largo do Machado. Há uma banca que, naquele momento, descobri que vendia as revistas francesas de cinema – em São Paulo, elas sumiram das bancas da Paulista, substituídas pelas inglesas e norte-americanas. Compro Cahiers, mas não tenho muito apreço pela revista. Encontrei uma edição mais antiga – de abril – que acho que já tenho. Por via das dúvidas, comprei de novo. Essa mania de colecionador – nem leio. É doença, só pode ser. (Cada um tem a sua mania. Depois de comprar a revista, para ir de metrô ao Centro, à sucursal, atravessei a praça. Havia dois ursos sentados, obviamente turistas, cada um com 3 celulares. 3! Fiquei um tempo parado, olhando, abismado. Não se disseram uma palavra. Talvez estivessem se comunicando pelos telefones, quem sabe?) O mestre das marionetes, é a capa da Cahiers de abril. Wes Anderson, sua ilha dos cachorros. Cães e lixo, o Japão. Li, somente agora, a entrevista do diretor. E a autocrítica da revista. A teoria baziniana do realismo ontológico dificulta, para não dizer que impede, a adesão aos filmes de animação. Eu desisti desses conceitos desde que, há alguns anos, escolhi Ratatouille como meu melhor filme daquela temporada. Ratatouille! O rato que queria ser chef! O crítico reencontrando o tempo perdido. Obra-prima! Leio a homenagem da revista a Idrissa Ouedraogo – Eternelle jeunesse, Juventude eterna. O homem que colocou Burkina Faso no mapa do cinema. Mas foi a parte de DVD da edição que me encantou. À altura da infância – reunidos numa caixa três clássicos de Alexander Mackendrick, incluindo Sammy Going South, de 1963. Sozinho contra a África. A caixa não inclui Vendaval na Jamaica, de 1965, porque creio que já havia sido lançado antes, na França, por outra distribuidora. Mackendrick é um desses autores que sempre provocaram divisão. Cahiers, na época de Godard e Truffaut, nunca o colocou no panteão, e agora corre atrás. (Para se afirmar, e aos seus colegas de geração na nouvelle vague, Truffaut fez guerra ao cinema da geração anterior. Escolheu Claude Autant-Lara como alvo preferencial, mas jogava no mesmo ralo René Clair e Julien Duvivier. Orson Welles considerava Duvivier um mestre e hoje há um movimento na crítica de língua inglesa para resgatar René Clair. Nada como o tempo…) O lançamento em DVD de La Villa, Uma Casa à Beira-Mar, de Robert Guédiguian, permite esclarecer uma dúvida. Aparecem, naquela cena do carro, os atores quando jovens. São de outro filme de Guédiguian – de Ki Lo Sa?, de 1985, que o DVD lançado na França inclui como extra. E a edição ainda inclui uma entrevista com Med Hondo. Med quem? Para o espectador brasileiro, é menos que zero, mas Med Hondo foi, e é, o dublador francês das grandes vozes negras de Hollywood, de Eddy Murphy e Morgan Freeman. Nascido na Mauritânia, é também o diretor de um filme que, restaurado, está sendo colocado nas nuvens – Soleil Ô. Apesar de nossas origens africanas, o cinema da África é tão pouco conhecido. O próprio Ouedraogo, tanta coisa para descobrir…