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E o César também se dividiu

Luiz Carlos Merten

02 de março de 2016 | 10h46

Parece mentira, mas desde o sábado acordo pensando que tenho de entrar na rede para ver quem venceu o César, o Oscar francês. A cerimônia realizou-se na sexta-feira à noite, e como sempre foi ofuscada pelo prêmio da Academia, que acompanhamos pela televisão e ocupa todo o espaço da cobertura midiática. E o César foi, pesquisei agora, para… Em primeiro lugar, vale destacar que concorriam pesos pesados como Dheepan, de Jacques Audiard, que venceu a Palma de Ouro, Mustang/Cinco Graças, de Deniz Gamze Erguven, que concorria ao Oscar de filme estrangeiro pela França, e A Lei do Mercado, de Stephane Brizé, que valeu o prêmio de ator para Vincent Lindon, também em Cannes (e ele bisou com o César da categoria). Dheepan foi o grande perdedor – não levou nada. Ganhou Fatima, de Philippe Faucon, um filme muito bonito sobre uma diarista do Magreb que dá duro para criar os filhos após a separação do marido. Os garotos vão à escola, dominam o francês e a mãe, que já é discriminada por ser mulher, pobre e falar mal a língua de seu país de adoção (a França), resolve se inscrever num curso de francês. A história lembra um pouco a de A Educação de Rita, que Lewis Gilbert adaptou da peça de Willy Russell, com Julie Walters como trabalhadora que se inscreve no curso de literatura de Michael Caine e vira outra mulher, mas só que não açucarada e, pelo contrário, narrada com o rigor de um Abdellatif Kechiche, que já abordou esse tema da linguagem como ferramenta de dominação/libertação em filmes como O Segredo do Grão e Vênus Negra. Como no Oscar, Faucon levou melhor filme, mas não a melhor direção e quem venceu na categoria foi Arnaud Desplechin, por Três Lembranças da Minha Juventude/Trois Souvenirs de Ma Jeunesse, que amo. Na categoria filme estrangeiro, o compadre Alejandro (González-Iñárritu) venceu O Filho de Saul, do húngaro Laszlo Nemes, mas não por O Regresso, que estreou somente na quarta, 24, na França. Iñárritu venceu ainda por Birdman, do qual não gosto tanto, mas de qualquer maneira também não sou um grande admirador de O Filho de Saul e até fico cabreiro com o exercício de manipulação (do olhar, da emoção) a que Nemes nos submete em nome de um pretenso distanciamento crítico. Aproveitando, quero dizer que, na tarde de quinta – meu voo de volta era à noite -, fui ao Beaubourg em busca de um livro e passei pelo MK2, o conjunto de salas de Marin Karmitz, colado ao museu. Tive uma ‘baita’ (baixou o gauchês) surpresa. Apesar de toda a cobertura da imprensa para o Revenant, o filme com mais público naquela hora era… Beira-Mar, da dupla (gaúcha) Márcio Reolon e Filipe Matzembacher. Poderosos, os guris.