As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

…E o CCBB tem sido minha morada

Luiz Carlos Merten

01 de fevereiro de 2020 | 11h43

RIO – Cá estou, desde quinta. Estranha maneira de passar as férias. Vim por poucos dias e, na quinta, passei boa parte de minha tarde na sucursal, fazendo matérias. Depois, fui ao CCBB, que apresenta a retrospectiva de Federico Fellini que só migra para São Paulo em março. Assisti a Os Boas Vidas e, na saída, ao pegar um táxi para jantar no Lamas, vi-me no meio de uma tromba d’água, com ruas alagadas no Flamengo e galhos e árvores caindo pelo caminho. Terminei mudando o rumo, estava impossível chegar ao Lamas, e fui à Trattoria, em Copacabana. Andei tão mal- acompanhado, durante tanto tempo, que gosto de me sentar sozinho para beber, ordenar os pensamentos. A verdade é que convivo bem comigo, e às vezes me sinto desajustado nesse mundo em que as pessoas, mesmo acompanhadas – os casais! -, ficam mais tempo fuçando nos celulares do que conversando. Leio que Sergio Moro criou sei lá que dispositivo nas redes sociais, com certeza visando a presidência, e tem feito mais de 100 mil seguidores por dia. Estamos perdidos. Nos EUA, o Senado está conseguindo barrar o impeachment de Donald Trump, que, tudo indica, irá para o segundo mandato. O horror, o horror. Esses messias serão a perdição da Terra. Aliás, tenho lido um autor espanhol – Javier Sierra -, cujas tramas fantásticas misturam elementos históricos e religiosos (bíblicos) para abordar temas da contemporaneidade, como a questão do meio-ambiente, desdenhada por Trump e Jair Bolsonaro. Só eu para ficar viajando nessas fantasias, mas elas sempre terminam por iluminar, para mim, aspectos incompreensíveis da natureza humana. Como e por que as pessoas são como são? Como nos surpreendem tanto, quase sempre para pior? De volta a Fellini, confesso que tenho um encanto particular por seus primeiros filmes, nos anos 1950. Abismo de Um Sonho, Os Boas Vidas, A Estrada da Vida, Noites de Cabíria. Lembrava-me de cenas inteiras de I Vitelloni, que fui reencontrando. A surra que Fausto leva do pai, depois de, casado e com a mulher grávida, continuar levando a vida de gozação e irresponsabilidade. E Leopoldo, que sonha ser autor e submete seu texto ao ator de passagem pela província – Rimini -, para descobrir que se trata de um velho gay cujo interesse por ele é puramente sexual. Amigos, numa vida sem rumo. Miei cari amici. Só Moraldo/Franco Interlenghi conseguirá partir – como o próprio Fellini, quando foi buscar novas possibilidades na cidade grande. Há um onirismo quase surreal dem cenas inteiras de Os Boas Vidas. Todo Fellini, ou pelo menos os rudimentos do seu universo particular já estão ali dentro. Voltei ontem ao CCBB, e estava uma loucura, mais que no dia anterior, por conta da exposição sobre o Egito antigo. Assisti a Ginger e Fred, que sempre me pareceu dos piores filmes do ‘maestro’ (com seu Casanova e A Voz da Lua), mas dessa vez algo me tocou. O Fellini final virou um misantropo, seus excessos barrocos, sua (des)estruturação de cenas e personagens tendem as me aborrecer, mas dentro daquela caricatura da TV – poderiam ser os programas de auditório de famosos apresentadores brasileiros -, fui fisgado pela história de amor de Pippo e Amelia, Marcello Mastroianni e Giulietta Masina. O reencontro/desencontro do casal que nunca foi. A vecchiaia – e com o ator que foi Fausto, Franco Fabrizi, fazendo o velho apresentador, de certa forma fechando um ciclo. Almoço daqui a pouco com Emilia Silveira e à tarde volto ao CCBB para tentar assistir a mais dois Fellini(s) – O Notebook de um Cineasta, que nunca vi, e Satyricon, que, por uma questão de horário, perdi na programação da Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, na semana passada. E, se der, ainda gostaria de ter mais Fellini amanhã, de volta a São Paulo. A Doce Vida com música de jazz ao vivo, no fim da tarde, ou à noite. Se der…

Tendências: