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E o ‘Bonde’ está partindo

Luiz Carlos Merten

30 Julho 2015 | 21h17

RECIFE – Cá estamos, no plural, Dib Carneiro e eu. Ele tinha uma palestra hoje, num festival de teatro que ocorre por aqui. No sábado, estreia uma montagem local de Salmo 91, a peça que lhe valeu o Shell de autor. Escalei-me e vim junto. Vou ter assunto para falar do Recife, com certeza, mas quero falar agora de uma coisa que ocorre aí em São Paulo, no Tuca, o Teatro da Universidade Católica. Vai ser no meu estilo sinuoso, sem atalho. Quem me conhece sabe que Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, é o filme de minha vida e que Annie Girardot, como Nadia, tem a que, para mim, talvez seja, ou é, a maior interpretação da história do cinema. Poderia citar dois ou três momentos antológicos que ela tem no filme. O encontro com Rocco, quando sai da cadeia e Alain Delon acaba de mandar o soldo, o dinheiro que ganha como soldado, para a mãe. Sentam-se num café, conversam. Ele fala do paese, da exploração dos contadini. Ela chora. Depois, a ruptura no alto do Duomo, a catedral de Milão, quando Rocco lhe pede que volte para Simone, que a estuprou. “Só um homem levado pelo desespero poderia fazer aquilo. Tu devi aiutarlo”, ele diz. E, finalmente, o assassinato, no pântano, quando ela abre os braços em cruz e recebe as facadas, depois de cuspir todo seu ódio por Simone, “que destruiu a coisa mais bela da minha vida”.  Assim como coloco Annie Girardot no topo do meu panteão, a crítica norte-americana Pauline Kael colocava lá no alto Vivien Leigh. Para Pauline, nenhuma interpretação era maior que a de Vivien como Blanche Dubois em A Streetcar Named Desire, que Elia Kazan adaptou da peça de Tennesse Williams, com Marlon Brando explodindo os músculos naquela T-shirt que fez história em Hollywood. Um Bonde Chamado Desejo. No Brasil, o título ficou sendo Uma Rua Chamada Pecado. Vivien é realmente extraordinária, mas, no livro com a entrevista que concedeu a Michel Ciment, Kazan conta que foi a experiência talvez mais infernal de sua carreira. Vivien já fizera a peça, dirigida pelo então marido, Laurence Olivier, em Londres. Dizia a toda hora para Kazan – ‘Mas com Larry era diferente, por que você quer fazer assim?’ Tudo o que leio sobre Vivien, todos os depoimentos e testemunhos, sublinham que ela foi ficando cada vez mais instável emocionalmente. Surtava. E era obcecada por sexo. Foi uma grande estrela, no teatro e no cinema. E foi certamente uma grande atriz – Blanche e, antes dela, outra dama sulista, e essa não dependia da caridade de estranhos, a Scarlett O’Hara de …E o Vento Levou, que o digam. Lembro-me de haver me perguntado – o que Pauline O’Hara acharia de Cate Blanchett em, ou como a Blue Jasmine de Woody Allen, que lhe valeu o Oscar e não deixa de ser outra Blanchett. Todas,Scarlett, Blanche, Jasmine, possuem a mesma matriz. E Blanche, você sabe, era Tennessee Williams. Gay de carteirinha, dividindo-se entre personagens que representavam a impotência dos homens e a mistificação das mulheres. Mais até do que Gustave Flaubert – ‘Emma Bovary sou eu’ -, Tennessee poderia bradar – ‘Blanche sou eu’. Tudo isso para chegar ao meu tema – a montagem de Um Bonde Chamado Desejo que se despede neste final de semana do Tucarena, embora esteja arrebentando. Não sei se gostei tanto da montagem de Rafael Gomes a ponto de dizer que é maravilhosa, mas gostei muito (muito!) de ter visto. Aquele cenário me bateu nos nervos. Demorei para entrar naquele bota e tira cadeira, arma e desarma mesa. Mas Rafael sabe como começar uma peça. E terminar -o público fica às beira da histeria. E os trilhos me produziram um efeito curioso. Travellings no palco. Bonitos, mas um tanto óbvio. Escrevi um texto para um livro sobre Gabriel Villela, a relação dele com o cinema. Kurosawa e Paradjanov. Em Macbeth, em que Claudio Fontana faz a lady, os movimentos hipnóticos do ator prendem o olho do espectador e nos forçam a  construir um travelling imaginário. Muito interessante. Aquilo sim é ousado (mesmo que pouca gente tenha notado). Quero dizer algumas coisas sobre a montagem de Rafael – por mais que Blanche seja uma personagem emblemática, a irmã, Stella, é outra grande personagem e eu já vi algumas Blanches que não me satisfizeram integralmente, mas Stella, quando a atriz é boa, é, como personagem, uma daquelas coadjuvantes que roubam a cena. A Stella de Rafael Gomes, espero estar acertando o nome da atriz, Virginia Buckowski, é ótima. Já vi até Isabelle Huppert fazendo Blanche – no teatro, em Paris -, mas não creio, por uma questão de temperamento, que ela estivesse bem. Maria Luisa Mendonça é a melhor Blanche que já vi no palco, melhor até que as da lendária Maria Fernanda, filha de Cecília Meireles – eu a vi atuar, gente -, e de Leona Cavalli. E olhem que eu estava apreensivo. Maria Luisa é poderosa, mas tem uma afetação que, se o diretor vacilar, acaba com as personagens, nos filmes e peças. Mas ela está boa demais da conta, como Gabriel Villela gosta de dizer. E o melhor. Já tomei muitas vezes aquele Bonde, já percorri a rua Pecado. Nunca, antes, tive uma sensação tão forte. O Bonde de Tennessee e Rafael Gomes me pareceu a matriz para La Strada, de Federico Fellini. Kowalski antecipa Zampano e Gelsomina é Blanche. Sei das diferenças, e o filme de Fellini é mais ‘intemporal’, o que não o impediu de retratar a Itália em meados dos anos 1950, a despedida do neo-realismo e a sua substituição pelo realismo interior, mas, para mim,. as similaridades bateram mais fortes. Fiquei encantado com minha descoberta. Gostei demais de ter visto a montagem de Rafael Gomes. Conversei com o diretor na saída e ele disse que ia pensar, que Fellini não foi referência para ele que a conexão estava no meu olhar. Pode ser, mas, se eu vi, é porque está lá. A peça é puro realismo psicológico, no limite do simbolismo. Rafael entendeu e transpôs isso lindamente para o palco, por maiores que pudessem ser algumas restrições que nem vou fazer. Mais importante é destacar que o Bonde está partindo. Vejam!