As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

E o Barroco foi para… Baronesa!

Luiz Carlos Merten

29 Janeiro 2017 | 09h14

BELO HORIZONTE – O público jovem acolheu Luiz Rosemberg Filho com tanto entusiasmo. Talvez o júri jovem tenha avaliado que um diretor com o currículo dele não precisa mais de prêmio, e por isso não escolheu Guerra do Paraguay. É o melhor da Mostra Olhos Livres de 2017, o melhor de toda a programação da Mostra de Tiradentes neste ano, mas fico contente que a garotada tenha escolhido Lamparina da Aurora e até espero ter contribuído para isso,na medida em que debati o filme de Frederico Machado e abri meu coração e mente para a complexidade de interpretações e leituras que o longa possibilita. E o melhor filme da Mostra Aurora foi… Desculpem-me os demais concorrewntes, mas não poderia ser outro – Baronesa, de Juliana Antunes. Encanta-me pensar que Juliana esteve em Tiradentes, em 2014, como integrante do júri jovem que premiou A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa. Nestes dez anos de Mosdtra Aurora, tenho preferências muito claras por filmes que já venceram o Troféu Barroco – Estrada para Ythaca, dos ‘guris’ da Alumbramento, que ajudei a premiar; Os Dias com Ele, de Maria Clara Escobar; A Vizinhança do Tigre, do Affonso; e agora Baronesa. E pensar que, há apenas três anos, Juliana teve essa experiência transformadora que a fez querer ser cineasta. E o filme tem o dedo do Affonso, que foi um de seus montadores. Baronesa dialoga tão bem com o Tigre, com outro filme da Aurora deste ano, Corpo Delito, também realizado por um estreante, Pedro Rocha. É a essência da Aurora. Novos diretores até o terceiro filme, cinema autoral e independente, filmes ‘inquietos’, como os define o curador Cleber Eduardo, e a maioria, neste ano, é de viajantes de primeira viagem, cineastas que assinam seu primeiro longa. Não gostei muito de Um Filme de Cinema, de Thiago B. Mendonça, nem de Sem Raiz, de Renan Rovida, mas assino embaixo das tomadas de posição de ambos e os dois filmes têm, isoladamente, cenas que estão entre as melhores que vi em Tiradentes nesta edição. Já falei das duas. O passeio da garota com a câmera no filme do Thiago e a consulta para abrir a empresa no do Renan. Confesso que não vi muitos programas da Mostra Foco, mas vi aquele em que estava o curta vencedor, Vando Vulgo Vedita, de Andreia Pires e Leonardo Mouramateus, do Ceará, aliás, duplamente vencedor, porque, ao prêmio da crítica, somou o de aquisição do Canal Brasil. Os prêmios do público foram para o curta Procura-se Irenice, de Thiago B. Mendonça, e e o longa Pitanga, de Beto Brant e Camila Pitanga. Falando mineirês, gosto demais da conta, dos dois. Foi, como sempre, um banho de juventude estar em Tiradentes. Ouvir o outro, e o ‘outro’, no caso, sendo predominantemente o corpo jovem, é radical por natureza. Eu sei que, como jornalista de cinema – não como crítico -, muitas vezes contemporizo. Mas é que estou convencido de que, como as chanchadas da Atlântida são ferramentas para se entender o Brasil dos anos 1950 e as pornochanchadas, o dos 70, as tão execradas ‘globochanchadas’ – não sabia da definição – já revelam o Brasil atual. Escancaram. Estou indo daqui a pouco para o aeroporto, de volta para casa, em São Paulo. Algum dia falo do nosso debate – com Sheila Schvarzmann e João Luiz Vieira – sobre o cinema brasileiro dos últimos 20 anos. Inseri o Paulo Gustavo na minha fala. Minha Mãe É Uma Peça 2 está indo de vento em popa na bilheteria, com chance de se converter na segunda maior bilheterias da histórias, no País, atrás de Tropa de Elite 2 e à frente do fraudulento Os Dez Mandamentos, que vendeu ingressos feito água, mas nas sessões em que vi – e foram muitas, até porque estava atrás do público para fazer matérias -, tinha sempre uma miserinha de gente. Inversamente, já contei aqui como Dib Carneiro me relatou – ele viu Aquarius e Minha Mãe 2 em sessões cheias, ou quase; o filme do Kleber Mendonça Filho foi à tarde, o de César Rodrigues com Paulo Gustavo tenho certeza que à noite, enquanto eu assistia à pré-estreia do terror coreano Invasão Zumbi. E ambos foram aplaudidos pelo público no fim. Aplausos, de verdade. Paulo Gustavo não flerta com a Barra. Tem permanecido em Niterói, subúrbio do Rio (minhas desculpas ao niteroienses), e dessa vez Dona Hermínia está preocupada com o futuro profissional dos filhos. Na contracorrente da cura gay, ela, inclusive, surta quando Juliano, o filho, diz que é bígamo. Quer que ele volte a ser ‘viado’. E o público conservador morre de rir. Aplaude, até. Posso estar equivocado, mas, num outro sentido, é um enfrentamento tão forte com a ordem como o do filme do Kleber. Vejam que tergiverso e, de Tiradentes, caí no ‘mercado’.