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E o Ang Lee inicia nova era, em Projeto Gemini

Luiz Carlos Merten

14 de outubro de 2019 | 22h46

Comprei no sábado, na banca em frente ao Conjunto Nacional – após as sessões de imprensa da Mostra -, as novas edições de Sight and Sound, Empire e Total Film. A última traz o Joker na capa, Joaquin Phoenix, o mais que provável vencedor do Oscar de melhor ator de 2020. Para mim, sobram só duas vagas para indicações. Já tenho três candidatos. Joaquin Joker, Brad ‘Ad Astra’ Pitt e Antonio ‘Dor e Glória’ Banderas. Pitt pode concorrer também a melhor coadjuvante por Era Uma Vez… em Hollywood, isso se a Academia não decidir que ele também é protagonista no Quentin Tarantino, mas essa, como diria Billy Wilder, é outra história. De volta a Total Film. Uma chamada na capa, Explosive New Films, lista, entre outros, Gemini Man. Projeto Gemini. Li o texto depois de ver o filme, uma entrevista com Ang Lee feita a partir de uma amostra de 20 minutos. Gostei muito, mais que isso, impressionei-me muito com Projeto Gemini, mas não creio que seja fácil para quem não viaja em cenas de ação como eu. Tem uma cena eletrizante de perseguição de motos nas ruas de Cartagena, em plena luz do dia, e outra cena noturna de briga – corpo a corpo, soco a soco – numa catacumba. Will Smith, de 51 anos, briga com sua versão de 23. Will contra Smith. Não pai e filho, mas o homem maduro enfrentando a sua porção jovem – programada para matar. São cenas geniais, mas não creio que façam muito sentido, se o espectador não se sentir conectado com o Will jovem. Toda a lógica do filme consiste em nos fazer acreditar que ele seja possível como experimento high tech. Clonado, como a ovelha Dolly. Na revista descobri que Gemini era um projeto que já existia há mais de 20 anos na indústria, desde 1997. Surgiu na Touchstone, divisão da Disney, e depois, por décadas, esteve na mira de diretores como Tony Scott, Curtis Hanson e Joe Carnahan, e de astros como Harrison Ford, Mel Gibson, Nicolas Cage e Clint Eastwood. Não foi feito antes porque não havia tecnologia. As novas ferramentas do digital permitiram criar o Gollum e os orcs de O Senhor dos Anéis, o rei Kong, a selva e os animais de Mogli e o tigre no barco de As Aventuras de Pi. Muito provavelmente foi Pi que trouxe Ang Lee para Projeto Gemini, mesmo que a questão ética das guerras, e a psicologia do soldado, venham de outro filme do diretor, A Longa Caminhada de Billy Lynn. Projeto é um grande filme de ação e aventura, mas o diferencial, que faz dele um ‘experiment’, é a questão emocional. Animais, seres fantásticos, bizarros, tudo isso a motion capture ajudou a criar. Mas ainda havia a última fronteira. Criar, do nada, uma imagem de homem tão real que se torna concreta na tela. Para Will Smith, foi um desafio e tanto, além de uma oportunidade para se reavaliar. Ele próprio conta que reviu tudo o que fez no começo da carreira para tentar representar naquele tom. Gostei, achei tudo muito interessante – e crítico-, mas confesso que quero muito rever o filme, porque não estou seguro de que a versão jovem de Will seja tudo isso. Principalmente na ação, me pareceu muito personagem de game. Os olhos, principalmente, que são a janela da alma, a expressão geral do rosto. Percebo o avanço, mas sinto que ainda há um longo caminho a percorrer, para que o novo homem cinematográfico, da era digital, seja perfeitamente real. Em 1995, uma editora do Rio Grande do Sul me propôs um livro, uma história do cinema, para comemorar o centenário do invento dos irmãos Lumière. Algum tempo depois, me propuseram a reedição, mas não topei. Haviam surgido no intervalo Moulin Rouge e a saga de Frodo. Preferi escrever outro livro, sentindo que esses filmes – e alguns outros, como Dançando no Escuro, de Lars Von Trier – haviam aberto novas fronteiras. Está na hora de escrever um terceiro livro. Por menos que tenha amado Pi – gosto, ma non tropo -, reconheço que Ang Lee, mais até que James Cameron, em Avatar, está inaugurando nova era. E o mais curioso – ninguém me convence que esse seu interesse pela tecnologia não seja uma forma de superar o trauma dos efeitos de Hulk, que tanto deixaram a desejar – o personagem virou um boneco inflável! -, há 16 anos.