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E, no Varilux, hoje tem Romain Gary

Luiz Carlos Merten

10 Junho 2018 | 10h31

Fui ao Rio, na quinta, para as entrevistas do Festival Varilux. Reencontrei Clotilde Hesme e Finnegan Oldfield, ambos muito simpáticos e ele protagonista de um dos melhores filmes – o melhor? – dessa edição do evento. Marvin conta a história de um garoto interiorano. Sofre bullyng, a bichinha da escola. Salva-o o teatro. Anne Fontaine dirige e o ator fetiche dela – Charles Berling – está presente, bem como ecos de Nettoyage à Sec, Lavagem à Seco. Em seus melhores filmes, Anne tem um approach libertário do sexo – Coco Before Chanel, Gemma Bovary. Gostei, e o filme ainda tem Isabelle Huppert no papel de…Isabelle Huppert! Antecipei meu retorno e cheguei ontem, no início da tarde, com a perna destroçada. De novo, não consegui fazer físio, de tão fervendo e inchada que estava. Vamos ver hoje. Como tinha de colocar gelo – muito gelo -, fiquei em casa terminando mais uma uma Agatha Christie, O Mistério Sittaford. Dei uma zapeada na TV. Passava o programa do Luciano Huck. Pai dos pobres. É bem do que o Brasil atual precisa. Continuei zapeando e, quando voltei, o Huck entrevistava Neymar, lembrando quando era pobre. Pai pedreiro, mãe vendedora de pastel, o sonho transformador do futebol. Nunca botei muita fé nesse moleque, mas este ano sinto que vai ser diferente – espero. ‘Ney’ fica calado. É evidente sua emoção. No que pensa Neymar? Entra em cena Bruna Marquezine. A princesa (futura rainha?) Catarina de Deus Salve o Rei não consegue dissimular o estranhamento de estar naquele muquifo. O olhar de Bruna. Existem momentos reveladores, em que o silêncio diz tudo. À noite, fui ao Varilux. Terminei optando, questão de horário, por Gauguin – Viagem ao Taiti, de Edouard Deluc, com Vincent Cassel como o pintor. Gauguin como artista maldito. Suas telas que nada vendem, a experiência taitiana. A descoberta de sua Eva selvagem. Em plena fase de empoderamento feminino, é interessante ver como as mulheres, em sociedades ditas primitivas, já gozavam, há 100 e tantos anos, de liberdade de escolha. Gauguin e Tehura, sua modelo, sua musa, sua mulher. Como ele a teve, e perdeu. Pretendo voltar hoje ao Varilux. Não sei se conseguirei ver mais de um filme. Em todo caso já escolhi Promessa ao Amanhecer, de Eric Barbier, às 6 da tarde, 18h10, no CineSala. O romance autobiográfico de Romain Gary já havia sido filmado em 1970 por Jules Dassin. Foi um dos últimos filmes do diretor. Dassin! Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, o tem em altíssima conta, pelo menos até o que considera a influência desastrosa de Melina Mercouri. Antônio Gonçalves Filho é um guerreiro solitário na defesa de Dassin. Ou me engano muito ou ele gosta particularmente de Promesse à l’Aube. Escritor de prestígio, Romain Gary foi adaptado por John Huston nos anos 1950, Raizes do Céu. Casou-se com a mítica Jean Seberg e virou cineasta. Les Oiseaux Vont Mourir au Perou, Os Pássaros Vão Morrer no Peru, batizado no Brasil como Desejo Insaciável, e Kill. O casal na praia, fazendo sexo, mas não é isso que parece. A máscara grega. O movimento ritmado até que a máscara cai. Sinceramente, não consigo me lembrar se Desejo Insaciável, que começa assim, é bom, mas a imagem ficou comigo. O jovem Romain, a aviação, a guerra. A mãe dominadora. Pierre Niney e Charlotte Gainsbourg. Estou muito curioso ver essa nova Promessa ao Amanhecer.