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E não é que há esperança?

Luiz Carlos Merten

10 de setembro de 2015 | 09h43

Daqui a pouco sai a indicação do filme brasileiro para o Oscar. Não tenho muitas dúvidas de que o de Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta?, será indicado pela comissão integrada por Rodrigo Fonseca. Meu amigo vai ficar p…, mas Pedro Butcher e ele, dois dos raros jornalistas e críticos de cinema do País a quem respeito, já integraram outro júri, o de curtas no Festival de Gramado, e as escolhas foram um desastre, para mim, pelo menos. Desde a sua premiação no Sundance, no começo do ano, o filme de Anna gerou expectativa. Passou por Berlim, estreou na Europa e só depois entrou simultaneamente nos EUA (em Nova York, não sei em quantas mais cidades, ou quais) e no Brasil. Algo se perdeu no meio do caminho, pois Que Horas Ela Volta?, mesmo interpretado por uma persona pública como Regina Casé – numa criação que muitos, inclusive eu, acreditam que poderá leva-la até o Oscar -, não fez nem de longe os números de bilheteria esperados. Algo não funcionou no lançamento, o trailer não vende o filme, ou então é mesmo rejeição da classe média à personagem da doméstica que segue os passos da filha e deixa de se posicionar no seu lugar. Val/Regina é da casa, como diz a patroa, mas da cozinha prá lá (área de serviço e quarto apertado). A filha, Jessica, lhe abre uma porta que a assusta e até desagrada, no começo, mas pela qual entra. É o novo Brasil das classes C e D, que gera tanto preconceito e desentendimento. Estamos vivendo no Brasil uma crise de confiança, sei disso, mas ontem jantei num restaurante do Centro. Havia uma TV ligada e passava o Jornal Nacional. E eu ouvi/vi a notícia que me fez chorar. Apesar da m… toda, melhoramos. A mortalidade infantil caiu 53% no Brasil. Em 1990, morreram 12,7 milhões de crianças. Em 2015, os números caíram para menos da metade, 6 milhões. É muita gente, ainda é um holocausto, e espero que não me entendam mal pela comparação. O problema é que essas 6,7 milhões que sobreviveram vão querer saúde, educação, oportunidades. Haverá muitas Jessicas com atitude entre elas, reivindicando seu espaço, o espaço a que têm direito. E o que vamos fazer? Construir, realmente, a pátria de todos? Ou seria melhor, como antes, a seleção natural? Os milhões de crianças que se perdem não reivindicam seu quinhão do bolo. É isso que queremos? Eu, não. Apesar de tudo, me deu uma esperança… Que Val e Jessica voem! E que o público descubra o filme da Anna, que tem similaridades com Casa Grande e O Som ao Redor. É verdade que, numa classificação, colocaria o de Fellipe Barbosa em primeiro, Casa Grande, meu melhor filme do ano, o de Kléber Mendonça Filho, O Som ao Redor em segundo, e o Que Horas…? em terceiro. Apesar disso, Que Horas…? poderia ser, acho, o mais palatável para o público, se o público o tivesse descoberto. E, agora penso, não tenho a lista dos filmes que concorrem à indicação. Procurei em toda parte e não encontrei, ao contrário de anos anteriores, quando a lista me chegava por e-mail. Casa Grande pode muito bem estar entre eles. Poderia ser o indicado. Que reviravolta, hein?