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E não é que ele sabe mesmo?

Luiz Carlos Merten

04 de agosto de 2014 | 17h18

No post anterior, relatei que estava saindo para a cabine de Não Pare na Pista – A Melhor História de Paulo Coelho. Voltei correndo para o jornal, emendei reunião de pauta com textos sobre a abertura do Festival de Cinema Judaico (amanhã) e só agora parei. Achei o filme de Daniel Augusto bem inteligente, mas durante uns dois terços da narrativa não estava gostando. Multifacetado e jogando com tempo e espaço, o filme não deixava que me conectasse. Não tinha empatia pelo personagem. E aí, click! Ocorreu. Foi na cena em que Paulo é preso, após o show de Raul Seixas. Regime militar, a censura dos milicos via subversão em tudo. Tortura nele! Choque elétrico? Paulo, que já havia sido internado e sofrido choques por sua suposta ‘loucura’, desafia e, na verdade, desmonta o torturador. Se choque nem porrada o atingem, o que seria tortura para ele, pergunta o carrasco, já prevendo o próximo movimento para quebrar esse cara, e o Paulo responde – tirar meu sangue. E ele próprio começa a se unhar, vertendo o próprio sangue, o que desautoriza o torturador, que percebe que desse louco não vai conseguir tirar nada. Achei a cena excepcional e, depois disso, o filme só melhora. Júlio Andrade e seu irmão Ravel, que faz o Paulo quando garoto, são ótimos, o que faz Raul é muito bom e Paz Vega é sensacional, mas a atriz que faz a mulher do Paulo é melhor e, de todo o elenco, quem me impressionou de verdade foi Enrique Dias, excepcional como o pai. Quando disse que achei o filme diabolicamente inteligente, foi pelo seguinte. Paulo Coelho é o único autor vivo que já vendeu mais que Shakespeare, ou vende tanto quanto Shakespeare, segundo o letreiro final. Apesar disso, os críticos o detestam – eu não posso opinar porque nunca li, mas estou pensando, agora, em fazê-lo. O filme termina com a fala do editor recusando O Alquimista e dizendo que o livro não é bom. O editor pergunta a Paulo se, honestamente, ele acha que alguém vai querer ler ‘aquilo’. Não só quiseram como querem, e Paulo Coelho está até hoje na lista dos mais vendidos do The New York Times. Mesmo assim, o filme ousa dizer que a literatura de Paulo Coelho talvez seja mesmo m… e sua melhor história é a vida na estrada. Não pare na pista. Gostei – muito! – da relação com o pai e do triângulo com a mãe, Fabíula Nascimento, boa, como sempre. A parte final resgata o filme todo. Todo aquele exercício de corte e montagem, as impertinências de Paulo me deixavam ‘frio’. Era como se o diretor Daniel Augusto me dissesse, não a mim, especificamente – ‘Olha como sei filmar…’ E não é que ele sabe? Quando fica menos fragmentado, bem no fim, o filme cresce.

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