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E Mulligan tem seu espaço no meu panteão

Luiz Carlos Merten

17 de fevereiro de 2018 | 17h52

Existem filmes e diretores que podem não contar muito para os outros, mas fazem parte da minha bagagem cultural. Robert Mulligan deve sua fama preferencialmente a O Sol É para Todos, que adaptou do romance de Lee Harper, To Kill a Mockingbird, mas ele faz parte de minhas mais profundas emoções no cinema por conta de dois filmes de gêneros por volta de 1970, o western A Noite da Emboscada e o romântico Houve Uma Vez Um Verão/Verão de 42. Até hoje me pergunto como um diretor de pequenos dramas urbanos conseguiu ter fôlego para compor a majestosa saga de The Stalking Moon – um chefe índio, significativamente chamado de Salvaje, persegue o guia que fugiu com sua mulher branca e o filho mestiço. A perseguição é implacável e Salvaje, que inicialmente não é visto, não apenas deixa um rastro de destruição na tela como encurrala o herói, transformando-o em presa de sua caçada humana. Gregory Peck e Eva Marie Saint formam o casal de brancos e eu nem me lembro quem fazia Salvaje – fui pesquisar e encontrei o nome, Nathaniel Narciso, tanto mais impressionante porque, quando finalmente aparece, nós, o público, já estamos aterrados com sua força destruidora. Salvaje, de alguma forma, antecipa para mim, Ulzana, em outro grande western – A Vingança de Ulzana, de Robert Aldrich, de 1972, em que Burt Lancaster é o guia de destacamento da Cavalaria que persegue chefe índio que fugiu da reserva, e está pilhando o matando no Arizona. Lancaster tenta entender a cabeça de Ulzana e outro guia, um índio, lhe explica, numa conversa ao pé do fogo, que ele faz isso para se apossar da força de seus inimigos. Críticos como Paulo Perdigão, na época, relacionaram A Noite da Emboscada a Meu Nome É Coogan, de Don Siegel, com Clint Eastwood, para mostrar como westerns e thrillers policiais podiam ser próximos, retomando a linha tênue que já permitira a Raoul Walsh transformar filmes de gângsteres em faroestes, e vice-versa. Por que estou exumando Robert Mulligan? Porque só hoje, folheando a Film Comment com Hong Sangsoo na capa, a de novembro/dezembro, encontrei, na página de home video, o lançamento em DVD e Blu-ray, pela Kino Lorber Studio Classics, de Love with the Proper Stranger, de 1963, O Preço de Um Prazer no Brasil. Natalie Wood como a vendedora da Macy’s que se envolve com o músico da noite Steve McQueen, ainda na fase pré-Fugindo do Inferno. Um típico Mulligan urbano, intimista, em suntuoso PB. Os anos 1960 seriam transformadores e Mulligan estava dando sua contribuição. Em discussão, o aborto. Tenho uma vaga mas bela lembrança do filme – também, com essa dupla – e gostei de ler o elogio da revista. É bom ter o filme de volta, após 50 e tantos anos de ostracismo.

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