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É hora de reunir as consciências dispersas

Luiz Carlos Merten

07 de setembro de 2015 | 10h23

Demos ontem no Caderno 2 a minha capa com Fernanda Montenegro. E logo recebi um e-mail de Domingos Oliveira, que a dirige em Infância, Colocar Fernanda Montenegro como paradigma, como marco de uma lucidez que ainda existe no Brasil, ele diz, isso tem um alcance maior que o artístico: é um passo político. É um oportuno achado. Isso faz convergir as consciências, nesse momento tão tristemente dispersas, para valores tais como a dignidade, a humildade, a sinceridade e a necessidade de trabalhar pelo nosso país . Mais que um elogio a uma atriz, é um exemplo claríssimo de que devemos ter a esperança como ofício, Domingos escreve, citando a própria Fernanda. Não sou de repercutir eventuais elogios – nem pedi votos no prêmio Comunique-se, do qual sou finalista, mais uma vez -, mas se reproduzo parte do e-mail de Domingos e cito a entrevista com Fernanda é porque ela, na sua lucidez, reafirma coisas em que acredito e se eu puder somar uma voz maior que a minha em defesa de ideais que nunca perdi, então eu o faço não só com prazer, mas com fervor. Isso posto, quero dizer que jantei com amigos no sábado. Maria do Rosário Caetano postou a foto ‘de família’, que deve estar no Facebook, sei lá onde. Margarida Oliveira, Inácio Araújo e a mulher, Sheila, Neusa Barbosa, que reclama que sempre escrevo o nome dela errado (está certo?) e o marido, Vita, Orlando Margarida, Maria do Rosário, claro, e eu. Comemos bem, bebemos bom vinho, contamos boas histórias e falamos de cinema. Há dias que eu estava querendo conferir o desempenho de Que Horas Ela Volta? na bilheteria e, a menos que o filme tenha reagido no segundo fim de semana, o primeiro pode não ter sido um fiasco, mas não foi nada bem. Foram 28 mil espectadores, cerca de 300 por cópia, o que foi pouco para um filme que teve mídia da Globo e imensa cobertura elogiosa da imprensa. Estava em Nova York no fim de semana passado e resolvi passar no Paris, um cinema colado no Central Park e que é um dos espaços do cinema de autor em Manhattan. Revi The Second Mother (título norte-americano de Que Horas Ela Volta?) numa sala quase cheia, e era domingo, depois do almoço. Vi o público rir e, no final, ouvi elogios. Na Europa, pelo que entendo, somente na França e na Itália, o Que Horas fez 200 mil espectadores. No Brasil, com sorte, multiplicando por dez o público do primeiro fim de semana, chegará a 280 mil. Não sei vai chegar mesmo, porque no Arteplex, por exemplo, já saiu da sala nobre e foi para uma pequena. A todas essas, soube que houve um debate sobre o filme no Recife e que rolou uma baixaria – Anna (Muylaert) foi agredida verbalmente (mas foi isso mesmo?) por comentários machistas de dois diretores locais, Cláudio Assis e Lírio Ferreira, ambos, até onde me contaram, bêbados. A assessoria bem deveria ter tirado proveito do episódio, para alavancar o público. Discutimos sobre a questão do marketing no cinema brasileiro. Como se vende um filme? Como se crias expectativa por obras como o Que Horas…?, que tem potencial de público, mas pelo visto não chegará lá? O episódio do Recife me entristece. Volto ao co0meço do post. A Fernanda Montenegro e a Domingos Oliveira. Estamos nesse triste momento de consciências dispersas, e o importante é fazê-las convergir. Sem isso, não há esperança.