As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

É hoje!

Luiz Carlos Merten

31 Janeiro 2015 | 17h31

Cá estou, de volta a São Paulo, de onde vou acompanhar o encerramento da 18.ª Mostra de Tiradentes, daqui a algumas horas. Viajo amanhã à tarde para Paris, onde permaneço duas noites e depois – Berlim! Meu querido amigo Enéas de Souza integra o júri da Mostra Aurora. Espero não cometer nenhuma indiscrição ao comentar o que ele me disse. Enéas foi jurado em Gramado, no ano passado, e não se sentiu representado na premiação. Desta vez, independente do resultado, de eu e o mundo gostarmos ou não, ele acha que vai estar lá. Quando conversamos, ainda não havíamos visto os dois últimos filmes das competição. A brasiliense Dácia Ibiapina – o filme dela, pelo menos, é do Distrito Federal -, pode comemorar, mesmo se não ganhar nada hoje à noite. Ninguém saiu da sessã0 de Ressurgentes, Um Filme de Ação Direta, e as sessões da Mostra Aurora, até pelo caráter de inovação dos filmes, são sempre marcadas pelo entra e sai dos espectadores. Creio que não postei, na quinta e sexta, sobre os filmes concorrentes, até porque estava numa correria do cão. Tinha muitas matérias para as edições de quinta e sexta do Caderno 2, queria ver filmes, participar dos seminários. Na quinta, Rodrigo Fonseca mediou a mesa sobre Transição entre Telas, o diálogo entre cinema e TV, com a participação de José Villamarin, Marcos Bernstein e Juliana Rojas. Na sexta, Hermani Heffner mediou a mesa sobre o lugar da política no cinema. Participaram Fernão Ramos,  Anita Leandro, diretora de Retratos de Identificação, e Luiz Rosemberg Filho. A mesa prometia mais que cumpriu. Fernão Ramos estendeu-se, tergiversou e não acrescentou. Rosemberg é Rosemberg. Radical, você não precisa rezar na cartilha dele nem aceitar tudo o que diz, mas a coerência entre vida e obra é total, e eu amo os filmes colagens dele.  Não me empolguei muito com Casa de Cecília, de Clarissa Appelt, exibido quinta à noite na Mostra Aurora. Muito Roman Polanski para o meu gosto, o processo de alienação de uma garota sozinha numa casa que parece de veraneio. Repulsa ao Sexo 2. Gostei bem mais de Mais Do Que Possa me Reconhecer, de Allan Ribeiro, que acho que será um dos vencedores (o vencedor?) na noite de hoje. Allan Ribeiro segue a vertente de Marisa Clara Escobar, que fez um dos mais belos filmes de toda a história da Mostra Aurora (com Viagem para Ítaca e A Vizinhança do Tigre). O filme de Maria Clara, Os Dias com Ele, é uma busca pelo pai dela, o filósofo Carlos Henrique Escobar, que resiste a ser filmado. No processo, ambos se revelam. No filme de Allan, o artista visual Darel Valença Lins se expõe, fala de tudo, até do suicídio do filho, mas me deu a impressão de que ele é um fingidor, que finge não ser dor a dor que está sentindo. É um sujeito que não se revela, que nos escapa constantemente, como no começo, quando brinca com a câmera e grava a equipe para deletar a imagem na sequência. O filme divide-se em partes, quadros, e eu fiquei pasmo com a forma, aparentemente insensível, como Darel lida com o suicídio do filho, relatando o episódio num capítulo sugestivamente chamado de O Quarto do Filho (qualquer semelhança com o filme de Nanni Moretti não é mera coincidência). Ainda tentava entender aquilo quando vi o documentário de Anita sobre vítimas da repressão no regime militar. Um ex-guerrilheiro fala sobre o suicídio da companheira, sobre como é difícil sobreviver a uma experiência daquelas. E ele, tomado pela emoção, chega a sair do quadro, que a diretora deixa vazio por quase um minuto. (Havia uma cena semelhante em Os Dias Com Ele,) Era a reação que eu talvez esperasse de Darel, mas ele secreta sua dor. Não é o que eu queria ver, mas justamente por isso é fascinante. As pessoas não param de nos surpreender. Tiradentes, também – e a Mostra vai ganhar uma edição paulistana, de 17 a 22 de março, no Sesc Conso0lação, com toda a programação da Mostra Aurora e os premiados das demais mostras, mais debates  e seminários.  São Paulo se gaba (gava?) tanto de ser ‘a’ cidade culturalmente mais avançada do País que me causou espécie o fato de a Mostra Aurora, no ano passado, no Cinesesc, não ter obtido nem de longe a repercussão que merecia. Quem sabe neste ano?