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E Gastal estava certo

Luiz Carlos Merten

26 de junho de 2013 | 10h00

Na verdade, quando falei ontem do post que havia perdido, ao sair correndo para a sessão de Man of Steel – um filme sobre a construção da ética -, tentei reproduzir parte do texto que falava de O Lugar Onde Tudo Termina. Mas, naquelas miscelâneas que me são típicas, havia misturado o Plein Soleil, cuja versão restaurada vi em Cannes. Posso ter perdido filmes de Cannes Classics quie me são caros, mas não perderia O Sol por Testemunha por nada desse mundo. O tributo do maior festival do mundo a René Clément, em presença de Alain Delon. Quando a adaptação de Patricia Highsmith surgiu, em 1959, a nouvelle vague estava explodindo e, em todo mundo, não apenas na França, foram poucos os críticos que se atreveram a defender a opbnra-0prima de Clément, afinal, um diretor da ancienne vague, do cinema de qualidade ou de regras fixas que o jovem François Truffaut adorava fustigar, antes de se tornar, ele próprio, um pequeno burguês autocentrado em seus problemas de educação sentimental – o que, evidentemente, não tira o mérito de alguns (muitos) de seus filmes, por mais acadêmicos que sejam. Nada como o tempo para corrigir injustiças históricas – tive de corrigir porque me saiu ‘histéricas’, o que, pensando bem, não deixa de ser. Em Cannes, vi Serge Toubiana, ex-redator-chefe de Cahiers du Cinéma, hoje diretor da Cinemateca Francesa, aplaudir Plein Soleil de pé, e com entusiasmo. Alexander Payne, que concorria com Nebraska, seu melhor filme – para não dizer o único de que gostei, até hoje -, definiu-se como cinéfilo na entrevista que fiz com ele, e Payne também aplaudiu de pé, voltado para Delon, no final da sessão. De volta à casa, descobri ontem, ao procurar não sei o quê – minha sala é uma zona, atrolhada de livros e DVDs -, o press book da restauração de Plein Soleil. Clément, antigo arquiteto e estudante de Belas Artes – interessava-lhe a pintura -, fala da cor em seu filme. A fotografia de Henri Decae é uma das mais belas já vistas, mas me lembro de já ter lido ou ouvido alguém dizer que é ‘decorativa’ (um caralho, com o perdão da explosão), mas aschei muito interessante, no press book, ver o príoprio Clément explicar que, se em seu filme precedente, Terra Cruel/Barrage Contre le Pacifique, adaptado de Marguerite Duras, havia se inspirado na paleta de Braque, mas que para O Sol por Testemunha seu modelo foi Mondrian, com suas tonalidades vivas (vermelho, amarelo e azul) quje invadiam a imagem, muitas vezes por meio de objetos do cenário, criando ‘borrões’ abstratos que, não apenas remetiam ao que ele encomendou como desenho dos créditos para Maurice Binder (Maurice Binder!), como também criavam, no inconsciente do espectador, um contraponto `as violenta imoralidade dos personagens, e de Tom Ripley, em especial. Confesso que não foi fácil para mim ficar ali sentado e ouvir Delon dizer – o Rocco! – que Clément foi seu mestre absolutro (e eu que pensava que havia sido Luchino Visconti). Mas foi uma jornada memorável. Pensei muito em P.F. Gastal, o Calvero, que era o único, em Porto, a defender Plein Soleil, numa época em que Enéas de Souza, Jefferson Barros e Marco Aurélio Barcellos começavam a usar o espaço que ele lhes dava, na Folha da Tarde ou no Correio do Povo, para incensar os jovens da nova onda. Gostaria muito que algum distribuidor trouxesse a versão restaurada do filme, ou que ele passasse no Festival do Rio e/ou na Mostra – na verdade, nos dois, para que o público de ambas cidades pudesse ver, e admirar, o clássico reencontrado.

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