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E foi-se o Astolfo. Rogéria virou estrela. Não, já era

Luiz Carlos Merten

05 de setembro de 2017 | 08h11

Morreu Rogéria, ontem à noite. Não – morreu Astolfo, que nasceu homem e criou essa personagem singular que chegou a se estabelecer no imaginário coletivo como a travesti da família brasileira. Entrevistei Rogéria este ano por conta da estreia de Divinas Divas, o belíssimo longa de Leandra Leal sobre as pioneiras – heroínas – do transformismo no Brasil. Na sequência, Rogéria foi internada e começaram os problemas. Era engraçada, espirituosa, inteligente. Rainha da piada pronta. Contou-me histórias extraordinárias, e algumas estão no filme. Quando garoto, ainda menino, brincava de Cleópatra e comandava legiões de meninos. Dizia que nunca deu para nenhum porque senão não iriam respeitá-la. E, se desrespeitavam, Cleópatra liberava a porção macho e baixava a lenha. Virou mulher em Paris, quando a secura do ar e as características da água liberaram o cabelão. O cabelo começou a crescer desordenada. Pobres franceses, pobre Louis Garrel, tão charmoso. Tenho amigos que dizem que ele tem de tomar mais banho. Não é falta de higiene. É esse ar seco de que falava Rogéria, é a água. Quando se viu no espelho, ela se disse – ‘Basta de ser homem!’ Tomou muito cacete na ditadura – e alguns foram ótimos, ria. Nunca esqueceu o conselho da mãe, que a apoiava (e a quem idolatrava). ‘Se for ser mulher, seja dama, não puta.’ Há um ano, no Festival do Rio, apresentando o filme de Leandra, Rogéria estava eufórica. Está vindo outro festival – será o post seguinte -, mas Rogéria se foi. Já que não era operada, perguntei-lhe se fazia xixi sentada ou de pé. ‘Depende, meu bem.’ De pé, levantava a tampa. ‘Homem é muito porco.’ Sua fobia era a última gota. ‘Se seca na cueca, começa a cheirar mal.’ Rogéria era uma grande artista. E fez o crossover. Da classe A à C e D, todos a adoravam. Em São Paulo, foi ao supermercado e das caixas aos empacotadores e donas de casa, todos e todas queriam fazer selfie com ela. Foi-se o Astolfo. Rogéria, essa ficção de si mesma, permanecerá viva. E o filme de Leandra vai ajudar a perpetuar o mito.

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