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E Conexão Francesa me deixou com dúvidas…

Luiz Carlos Merten

17 de agosto de 2016 | 00h28

Luiz Zanin elogiou Conexão Francesa na reunião de pauta do Caderno 2. Fez a crítica, mas, como não li, não saberia dizer a cotação que deu para o filme de Cedric Jimenez interpretado por Jean Dujardin e Gilles Lellouche. Acabo de vê-lo e, ao chegar em casa, me bateu a curiosidade de ler alguma crítica. Procurei na rede e encontrei as coisas mais disparatadas – pastiche de cinemão hollywoodiano, superficialidade dos personagens e situações, por aí. Eu confesso que achei interessante, mas empaquei com certos aspectos que me fizeram buscar análises críticas para ver o que diziam. Imagino que só eu tenha visto – talvez o Zanin -, porque, de resto, o assunto passou batido nos textos que li. Mas também pode ter sido pelo tal spoiler. Sugiro que leiasm só depois de ter visto o filme. A tal conexão francesa é a dos corsos que, nos anos 1970 e 80, dominavam o tráfico a partir de Marselha, exportando droga para os EUA. Parte dessa história já foi contada por William Friedkin em Operação França, de 1971, e o filme ganhou os principais Oscars do ano – filme, diretor, ator (Gene Hackman), roteiro adaptado e montagem -, tendo sido retomada, anos depois, por John Frankenheimer em Operação França 2, que teve uma repercussão bem mais modesta, o que considero injusto. Friedkin fez história com o verismo (e a urgência) do seu relato, e com uma perseguição de carros eletrizante, mas quando o entrevistei, décadas depois, ele me confessou que foi irresponsável, filmando sem nenhuma segurança, e que não sabia explicar como, apesar de tudo, a cena foi levada a cabo sem acidentes graves – em suma, ninguém morreu. Na contramão de Friedkin, e isso foi o que gostei no 2, Frankenheimer construiu seu filme em planos sequências longuíssimos, indo na contramão da decupagem do original. A história de Conexão Francesa, levemente baseada em fatos – adverte o letreiro inicial -,está longe, portanto, de ser novidade, mas Jimenez muda o foco e conta a caçada de um juiz (Dujardin) ao chefão mafioso (Lellouche). Zampa é seu nome e, de cara, ele é pintado como um monstro, o que faz com que a gente – eu, pelo menos – tenha passado o filme de coração na mão (ia colocar c…, mas achei melhor mudar), achando que a todo momento o mafioso e seus sicários iam esborrachar a cabeça daqueles a quem querem intimidar. O criminoso emprega um monte de gente e se define como ‘comerciante’. Seria o mal, em termos, porque o juiz, o bem, também não é santo. Além de ter um passado obscuro, M. le juge não é nenhum penitente e forja provas na cara dura, o que a mim fez lembrar os vazamentos seletivos da república de Curitiba, que nunca tiraram o sono do juiz Sérgio Moro e serviram a fins deveras políticos, mas quem se importa com isso? Nem mocinho nem bandido, ambos os personagens são casados, pais de família e fragilizados pelas mulheres – a do juiz ameaça ir embora, e ele desmorona; a do mafioso é festeira e o faz construir uma discoteca imensa que consome seu dinheiro e arruína os negócios. Tudo isso compõe um quadro curioso e bem armado, mas empaquei com o desfecho – olhem o spoiler -, que sugere uma cumplicidade do governo socialista de François Mitterrand, ou de seu ministro, com os corsos nos eventos que encerram a narrativa com uma nota trágica. Até esperei um letreiro – os corsos da polícia foram descobertos etc e tal. Nada. Mas o filme acusa. Dá nomes. O que me leva à interrogação – Conexão Francesa é uma obra de denúncia? Ange, vejam o filme e vocês vão entender, tinha as costas quentes? Permaneceu impune, e por que? No limite, não estou muito seguro de ter entendido o ponto do diretor, por mais eficiente que seja o filme. A propósito, não fazia a menor ideia de quem é Cedric Jimenez. Pesquisem e verão. Ele tem o physique e a rôle, se é que me entendem. Poderia ter demitido Lellouche e feito o papel de durão, deixando Dujardin desabar quantas vezes quisesse.

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