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E Churchill me deixou chapado. Brian Cox! Miranda Richardson!

Luiz Carlos Merten

03 Dezembro 2017 | 22h18

É uma das mais belas e simples ideias de mise-en-scène do ano. Churchill está num momento crítico da vida, e do casamento. Premier da Inglaterra e herói da Blitz, quatro anos antes, ele não participou da elaboração dos planos do Dia D e agora, no último momento, tenta interferir. Entra em choque com Montgomery, com Eisenhower. A mulher tenta trazê-lo à razão, mostrando que um recuo tático é a melhor solução. Brigam, discutem, ela o esbofeteia – terá ocorrido isso na realidade ou é uma licença (dramatúrgica) do diretor Jonathan Treplitzky e seus roteiristas? Estão na escada, Brian Cox e Miranda Richardson, Winston e Clemmie. Ela está alguns degraus acima dele. Travam um diálogo decisivo, e esclarecedor. Ela desce, ele sobe. ‘Comporte-se como um herói e as pessoas vão se lembrar de quem você é”, ela disse anteriormente. Tudo se resolve naquela escada. Talvez exagere, mas faz parte da minha natureza. Tenho a impressão de que assisti às duas melhores interpretações do ano, de muitos anos. F…-se a Academia, se não selecionar, e premiar, Cox e Miranda. O filme ainda tem uma terceira interpretação notável, que eu indicaria para melhor ator coadjuvante. Não, não é John Slattery, que faz Ike (e está maravilhoso), mas James Purefoy, o rei. Em apenas duas cenas, ele ‘engole’, pelo menos no meu imaginário, o Colin Firth de O Discurso do Rei, m… de filme. George não é mais gago, mas ainda tropeça nas palavras. É genial quando explica a Winston Churchill por que ambos não poderão estar nos navios, no meio dos soldados, durante o desembarque na Normandia, como quer o premier. Como Churchill já está saindo de cartaz – uma sessão apenas, numa sala -, fui procurar as reações dos coleguinhas. Na Folha, disseram que o filme é correto, mas não tem alma. Nos sites… Ah, bobagem. A alma! Há tempos não via um filme tão denso sobre a crise de um casal. Que esse casal ainda faça parte da grande História, com H, coloca o filme de Jonathan Treplitzky num patamar elevado para mim. Um dos meus melhores filmes do ano é Dunkirk, de Christopher Nolan. Churchill propõe um outro ângulo para se ver a guerra, e discutir as baixas humanas. Não há um só combate em Churchill, só os dos gabinetes. E a imagem de uma praia cheia de cadáveres que assombra Winston. Fiz uma resenha, é assim que se diz, de Origem,o novo Dan Brown, para o Caderno 2. Na nova fantasia do autor de O Código da Vinci, HAL, o supercomputador de 2001, assumiu o poder. E ele se chama Winston, como Churchill. O nome Church + hill, a colina da igreja, abriga um código. No universo de símbolos decifrados por Robert Langdon são muitas, em Origem, as referências a Darwin, Gaudí e… Churchill. Não me lembro de muitos atores que tenham interpretado o papel no cinema. Houve o jovem Winston de Nas Garras do Leão, no começo dos anos 1970, mas era um filme de Richard Attenborough, o rei da hagiografia, Deus nos livre. Fiz outra resenha de livro para o 2, neste fim de semana. Sam Shepard, The One Inside – Aqui de Dentro. Sam sempre foi muito crítico com autobiografias. Dizia que nunca encontrou uma em que o o personagem não fosse o herói de sua vida. Churchill, claro, não é uma autobiografia, mas Winston termina sendo o herói de sua vida – de incontáveis vidas. O filme é crítico. Como esse grande homem quase se perdeu. Vi emocionado. Se isso é não ter alma…?