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E Christian Rivers fez seu Frankenstein em Máquinas Mortais

Luiz Carlos Merten

11 de janeiro de 2019 | 00h55

SANTIAGO – Assisti ontem, em São Paulo, à sessão de imprensa de Máquinas Mortais. Na saída, corri para o banheiro e, ao voltar, havia um grupo de coleguinhas na porta do cinema, o Cinépolis do JK Iguatemi que vai fechar duas semanas (12 dias) para reforma. Estavam todos falando mal do filme de Christian Rivers e um chegou a me dizer – ‘Perdemos duas horas de nossas vidas!’ Não retruquei, dei tiau, mas com certeza não perdi nada da minha vida. Máquinas Mortais filia-se ao gênero de ficção científica chamado de ‘steampunk’, que, no limite, refere-se à tecnologia a vapor e homenageia um tipo de explosão tecnológica pré-digital, quando autores como Jules Verne, ainda no século 19, começaram a imaginar coisas (aviões, submarinos), impossíveis de viabilizar com os elementos então disponíveis. Máquinas Mortais baseia-se na série de livros de Philip Reeves e era o projeto que Peter Jackson queria fazer depois de King Kong, que se seguiu a O Senhor dos Anéis. Estava combinado que Guillermo Del Toro faria The Hobbit, mas ele desistiu e, Jackson, com o circo armado, teve de se lançar à nova adaptação de JRR Tolkien. Quando terminou, estava esgotado e sem condições, mas os direitos de Máquinas estavam vencendo e alguém teria de fazer o filme. Sobrou para um discípulo de Jackson, Christian Rivers, que nem queria se lançar a uma coisa tão grande, mas, colocado contra a parede, não pôde dizer não. Máquinas passa-se no futuro distópico, em que grandes cidades móveis devoram cidades pequenas para se apropriar de seus recursos (e energia). A maior de todas as cidades é Londres e para ali convergem diversos destinos cruzados. Hugo Weaving faz o vilão que tem um projeto megalômano; a garota, Hester, quer vingar a morte da mãe, destruída por Weaving para se apossar da tecnologia que ela descobriu; e tem o jovem historiador que se torna aliado da garota. Contra tudo e todos, adorei o casal e acho que Rivers conseguiu fazer seu Frankenstein no estranho Shriver, que persegue Hester (e é o Gollum dessa aventura). O próprio filme é um Frankenstein que mistura elementos de Mad Max, Guerra nas Estrelas, O Senhor dos Anéis e Harry Potter (sim!). Entendo que muita gente possa ter-se sentido ofendida com as referências, mas eu as vi, não como uma colagem absurda, mas ligadas a um conceito profundamente autoral (de Rivers). Gostei muito de Hera Hilmarsdottir e Robert Sheehan, e tenho certeza de que os dois vêm de séries de TV que desconheço, mas Stephen Lang, que fornece a voz a Shriver, já havia sido o genial vilão militar de Avatar, que quer destruir a árvore da vida no filme de James Cameron. Posso estar sozinho, e não estou dizendo que Máquinas Mortais é um grande filme, mas tem rasgos de genialidade e me encantou justamente pelo desequilíbrio que, para os demais, é defeito.