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E as memórias vencem no É Tudo Verdade

Luiz Carlos Merten

18 de abril de 2015 | 23h38

Estou chegando da cerimônia de premiação do 20.º É Tudo Verdade, que emendei com jantar, e por isso tardei para postar/comentar as decisões dos júris nacional e internacional. A França É a Nossa Pátria, de Rithy Panh, venceu a competição dos estrangeiros e A Paixão Seguindo JL, de Carlos Nader, a dos brasileiros. Foi a segunda vitória consecutiva de Nader, que no ano passado venceu com Homem Comum. JL são as iniciais de José Leonilson, pintor, desenhista e escultor cuja obra é essencialmente autobiográfica e que, ao se descobrir portador do vírus da aids, elaborou um diário íntimo para dar conta das transformações em seu corpo e na arte. Foi esse material ‘bruto’ que Carlos Nader elaborou para fazer um belo filme, um dos meus dois favoritos na competição nacional deste ano, mas confesso que, se estivesse no júri, teria feito das tripas coração para que o outro, Orestes, o documentário nas bordas – ficcionalizado – de Rodrigo Siqueira, tivesse ganhado. Há em Orestes uma urgência e uma atualidade que são viscerais no Brasil de 2015, e ao mesmo as várias instâncias narrativas de Siqueira – o documentário, propriamente dito, e tudo o que ele cria como ficção (o julgamento simulado, o psicodrama) me parece de uma riqueza e complexidade extraordinárias. Na competição internacional venceu o novo documentário de Rithy Panh, que já havia vencido a seção Um Certain Regard de Cannes, há dois anos, com A Imagem Que Falta. Em seu texto para o livro A Verdade de Cada Um – edição do É Tudo Verdade, organização do sr. Festival, Amir Labaki -, Rithy define-se como ‘agrimensor da memória’. É o que continua sendo, e agora debruça-se sobre a herança colonial francesa sem deixar de apontar o dedo acusador para o que o Khmer Rouge fez no Camboja. Extremamente simples e low profile, a premiação, conduzida pelo próprio Amir, foi marcada pela emoção dos vencedores. Jamila Fortunato venceu duplamente o prêmio de curta na competição nacional por Cordilheira de Amora II – A Paixão Segundo JL também ganhou os prêmios da crítica e do júri -, e na segunda vez não resistiu e chorou. Nader também estava muito emocionado. Disse que Leonilson foi o primeiro artista que conheceu e que se tornou referência para ele – o artista que queria ser. Em janeiro, o É Tudo Verdade foi formalizado como pré-selecionador para o Oscar de curta documentário da Academia de Hollywood, e isso significa que Cordilheira de Amora II – e Supercondomínio, de Tereza Czepiek, que venceu a categoria na competição internacional – já estão pré-indicados para o Oscar de 2016. Houve protesto – uma carta de diretores e pesquisadores cariocas – advertindo que, apesar do prestígio, o documentário é, decididamente, o primo pobre da produção audiovisual do País. Cada vez os editais investem menos na produção de obras do gênero, e elas também não têm apoio para ingressar no mercado. Desse jeito fica difícil, né? E agora aproveito para postar o que jamais imaginei que fosse escrever aqui. Tivemos no É Tudo Verdade deste ano o documentário póstumo de Eduardo Coutinho, Últimas Conversas, e a entrevista que ele fez com Silvana, a protagonista de Sete Visitas, de Douglas Duarte, que participou da competição nacional. Fiquei muito desconcertado com Últimas Conversas porque, de cara, para ser fiel ao mestre, seu amigo João Moreira Salles e a montadora Jordana Berg incluíram um depoimento de Coutinho em que ele manifesta suas dúvidas em relação ao projeto. Coutinho sempre foi muito visceral nesse jogo de cena que estabelecia nas entrevistas, mas já há algum tempo percebia-se que não andava bem. Talvez fosse a saúde, talvez o ceticismo que chegou a um ponto crítico, mas essa incerteza já transparecia em Moscou e aqui é mais intensa ainda. Como expressão do processo – e das dúvidas  – do criador, Últimas Conversas é interessante, mas não muito mais que isso. Em Sete Visitas, o segmento de Coutinho começa e termina muito estranho – de verdade. Ao longo de sua carreira, ele teve vários desses momentos de crise, dos quais saiu reinventando-se. Não tenho dúvida de que, não fosse o brutal assassinato, Coutinho poderia, quem sabe, se reinventar de novo. O que me parece injusto, com o próprio diretor, é atribuir a essas obras finais uma excelência que elas não possuem.

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